Saturday, September 11, 2021

Palavras: há um significado intrínseco?

 






Eis mais uma publicação em nosso blog. Sejam muito bem-vindo(a)s mais uma vez! É sempre um prazer poder compartilhar algumas reflexões/considerações/impressões sobre o ofício tradutório. Entre um projeto e outro vivenciamos experiências formidáveis. Ainda que a tecnologia esteja muito presente na vida do profissional da palavra, creio que a metáfora debruçar-se sobre o texto ainda seja muito ilustrativa para expressar a ideia de que, quando lidamos com um texto em língua estrangeira, encontramos dificuldades e peculiaridades, ou seja, trata-se de um desafio constante. Assim, creio que a atividade tradutória possa ser uma fonte de muitas alegrias e prazer – o que não significa que a atividade não seja trabalhosa; muito pelo contrário! Ela exige certo empenho, muito estudo e dedicação. Na publicação de hoje, gostaria de partilhar com os leitores e leitoras alguns pensamentos depois de concluir alguns projetos.

Como foi dito anteriormente em A relação do tradutor e seus pares, o ofício tradutório encontra na palavra a sua matéria-prima. Ou seja, na palavra, encontramos uma fonte praticamente inesgotável de possibilidades linguísticas. Elas tornam-se palpáveis a partir do momento em que dois ou mais idiomas passam a estabelecer entre si uma rica relação de convivialidade de acordo com o itinerário existencial do profissional da palavra. Uma palavra pode suscitar uma miríade interpretativa considerável e pode ainda ganhar nuances de complexidade, ou mesmo de ambiguidade, se levarmos em conta a variedade de textos com os quais se trabalha. Como podemos lidar com essas nuances? Uma palavra poderia evocar os contornos de uma emoção? Ou de imagem? Talvez de uma ideia? Ou quem sabe de um conceito? Ou ainda de uma ação? Certos idiomas modernos partilhados e falados nas mais diversas comunidades têm origens comuns, e ainda que eles tenham as suas particularidades, características e regras próprias, de um modo muito genérico, pode-se dizer que alguns deles apresentam algumas familiaridades entre si, se considerarmos as influências recíprocas durante o processo de evolução linguística e formação das palavras. Por exemplo, a palavra razão, em português, tem certa semelhança com a palavra inglesa reason, que, por sua vez, assemelha-se com a palavra francesa raison. O fato é que há inúmeros idiomas no mundo inteiro.

Já em Alguém disse que a tradução é…, considerei que a tradução não possui um valor a priori. Somos nós, seres humanos, que atribuímos valor à tradução após descobrirmos o seu valor. No caso de um livro, após uma leitura atenta e prazerosa, descobrimos a sua importância e, então, nutridos por aquela experiência maravilhosa, somos capazes de atribuir o valor àquela obra. Valor afetivo? Existencial? Filosófico? O fato é que o tradutor promove o encontro entre leitor e autor, e tenho a impressão que o ponto de encontro está no texto. Por outro lado, além do que comumente se costuma denominar tradução literária, ou seja, o ramo mais voltado para a tradução de livros, também há a tradução técnica. Por exemplo, quando uma pessoa compra um computador, seja ele portátil ou de mesa, dependendo do fabricante, muito provavelmente o equipamento será acompanhado pelos manuais do fabricante indicando uma série de informações: desde os detalhes mais técnicos concernentes ao equipamento – como características de funcionamento, especificações elétricas, especificações de configuração e detalhes dos componentes eletrônicos – até os detalhes mais básicos sobre o sistema operacional. Ou seja, caso o fabricante disponibilize uma versão traduzida do manual para o público ao qual o produto será oferecido, todas as instruções serão extremamente úteis ao usuário do equipamento na medida em que aquelas instruções fornecerem as informações e recomendações técnicas necessárias para o bom uso. Assim, neste caso, podemos atribuir o valor de utilidade à tradução, uma vez que o texto traduzido oferece todo um aparato informativo e instrutivo.

Tendo isso em vista, de alguns projetos para cá, e passando por algumas experiências interessantes, sobretudo após entregar alguns projetos de tradução criativa – jogos de videogame e transcriação –, passei a ter ainda mais apreço pelo cuidado com a inteligibilidade do texto traduzido na língua de chegada. E, por isto, gostaria de convidá-lo(a)s para que me acompanhem.

É muito comum haver uma certa inclinação em acreditar que as palavras possuem um significado intrínseco. Ou seja, existem as palavras, elas são articuladas em sentenças, e graças ao sentido que cada uma delas possui, é possível torná-las inteligíveis. Até aí tudo bem, as coisas acontecem desta maneira. Mas será que é sensato pensar em um sentido intrínseco para as palavras? Tomemos como exemplo a palavra “livro”. Se seguirmos essa inclinação, e acharmos que a palavra possui um significado intrínseco, o simples fato de falarmos, escutarmos, escrevermos ou lermos a palavra “livro”, torna possível a inteligibilidade do sentido. Entretanto, ao que me parece, as coisas podem não ser tão simples assim. Imaginemos a seguinte situação. Em uma manhã ensolarada de domingo bate aquela vontade de sair de casa. O desejo pede um passeio cultural. A pessoa dirige-se a uma livraria e, assim, o desejo é satisfeito. Chegando lá, o leitor começa a circular pelo ambiente e vê inúmeros “livros” organizados em prateleiras. Num primeiro momento, aquela visada mais superficial induz a crer que, de fato, são livros. Muito bem. Como a curiosidade é muito grande, e há muitos livros para serem explorados, o leitor dirige-se até um deles motivado pela vontade de folhear algumas de suas páginas. Sem que tenha se dado conta, o leitor dirige-se até o setor de idiomas e, ao invés de pescar um livro da prateleira, ele pescou um dicionário. Neste momento, ele pensa: – Ah! É um dicionário… Perceba que o fato de o leitor ter encontrado um dicionário no meio de tantos livros frustrou as suas expectativas. A partir do momento em que julgou precipitadamente tudo o que estaria nas estantes seriam livros, o leitor acabou desconsiderando todas as outras nuances significativas possíveis. A partir daquele momento, e mais atento, o leitor passou a perceber a existência de classificações correspondentes aos tipos de livro nas estantes. O leitor dirige-se ao setor de Literatura, e lá chegando, ele percebe haver literatura estrangeira, literatura nacional, literatura do Séc. XX e etc.; no setor de História, ele percebe haver livros de história antiga, medieval, moderna e contemporânea; algo semelhante acontece no setor de Filosofia (caso tenha a oportunidade de se aventurar neste universo, o leitor perceberá que filósofos e filósofas construíram e constroem o pensamento ao longo da história da filosofia). Há uma expressão muito ilustrativa que diz não julguemos o livro pela capa.

Evitar o julgamento precipitado durante a atividade tradutória parece-me uma prática adequada e recomendável, sobretudo no que se refere ao tratamento das palavras. Diante de um texto em língua estrangeira, dependendo da área com a qual o profissional da palavra trabalha, haverá dificuldades e desafios ao longo do percurso, como disse há pouco. Em textos da área da tecnologia de informação, área com a qual trabalho e tenho muita afinidade, um dos maiores desafios é lidar com a quantidade de termos técnicos, conceitos, nomes de produtos e tecnologias que necessitam de tratamento linguístico. Esse mundo é relativamente novo, e há muita gente que ainda está se habituando ao uso da tecnologia no dia a dia. De acordo com o meu ponto de vista, um dos maiores desafios para o profissional que traduz nessa área seria justamente lidar com toda essa carga terminológica. Por um lado, há os produtos e as tecnologias – aplicativos, computação, computação em rede, em nuvem, aprendizado de máquina, inteligência artificial, Internet, redes sociais, protocolos de comunicação, etc. –; por outro, o mercado consumidor – empresas e pessoas. Como lidar com toda essa terminologia e produzir um resultado linguístico satisfatório? Sabemos que boa parte dessas palavras são originárias do inglês. Como lidar com elas e traduzi-las no idioma de chegada?

Quando me refiro a evitar o julgamento precipitado no âmbito da tradução, tenho justamente a ideia de promover mais inteligibilidade ao significado das palavras. Nas Investigações Filosóficas, obra de autoria de Ludwig Wittgenstein (1889 – 1951), livro publicado postumamente e comumente inserido na segunda fase de seu pensamento, o filósofo austríaco apresenta, entre outras coisas, uma reflexão muito instigante sobre a linguagem. Entre tantas reflexões elaboradas nas Investigações, Wittgenstein fala sobre o uso das palavras. Para ele, há diferentes espécies de palavras. Por exemplo, “cadeira”; trata-se de uma palavra cujo uso, e não o suposto sentido intrínseco, determina a inteligibilidade do sentido. Quando digo: “estou diante do computador, em minha escrivaninha, sentado nesta cadeira, redigindo este texto”, uso a palavra “cadeira” neste contexto. Por outro lado, quando digo: “a cadeira de massagem foi colocada na sala principal”, uso a palavra “cadeira” de modo diferente. Ou, ainda, quando evoco uma cena do filme O Pianista: “o pianista sentou-se na cadeira, dirigiu-se ao teclado do piano, e interpretou um trecho da Balada n.º 1 em sol menor op. 23, de Frédéric Chopin”.

No primeiro contexto, o uso associa o objeto cadeira a um sentido relacionado a uma atividade laboral. Procurar as palavras, organizá-las harmonicamente em um texto e tornar a mensagem inteligível é uma das habilidades com as quais o profissional da palavra coloca em prática no dia a dia. Mas não é só isso. Estamos levando as palavras ao alcance do público leitor e, assim, praticamos também a sensibilidade linguística. Quem lê nunca está só. O texto pode ser extremamente agradável e a sua leitura também pode ser marcante. Aqui a cadeira, entre outras coisas, torna possível o trabalho do profissional da palavra. Nela, passamos muitas horas do dia tentando encontrar a solução mais adequada e ainda procuramos, com a ajuda de nossas habilidades, entregar o que há de melhor em termos linguísticos para os nossos clientes. O itinerário existencial do profissional da palavra possui as suas próprias idiossincrasias. Já no segundo contexto, o uso associa o objeto cadeira a um sentido ligado a um momento mediante o qual a pessoa que senta nela não trabalha. Passa-se horas nela, mas não há atividade laboral. As coisas acontecem no mundo e a pessoa fica nela fazendo absolutamente nada. A cadeira de massagem está na sala principal e, assim, na sala principal, ela fica, pois está voltada para quem está sentado nela. Aqui, a cadeira não foi feita para o trabalho. E no terceiro contexto (…)

O modo pelo qual Wittgenstein trata as palavras é extremamente fecundo. Há pouco identificamos uma espécie de palavra. “Cadeira”. Esta espécie de palavra evoca um objeto situado no mundo exterior. Entretanto, há outras espécies de palavras extremamente interessantes. Como disse anteriormente, tive a oportunidade de concluir alguns trabalhos para a área de videogame e transcriação recentemente. Para ambas as áreas, uma espécie de palavra muito interessante, e extremamente presente durante o processo de tratamento linguístico, seria “criatividade”. Tenho a impressão de que “criatividade”, diferentemente de “cadeira”, é de uma espécie diferente de palavra. Se, por um lado, “cadeira” evoca um objeto no mundo exterior, penso que “criatividade”, por outro lado, evoca algo mais ligado aos fenômenos mentais.

Os jogos de videogame fazem parte da vida cotidiana de muitos jogadores. Há muitos perfis diferentes. Desde aqueles que acompanharam todo o desenvolvimento tecnológico dos consoles nos últimos anos, passando por aqueles que jogam no computador, até jogadores que estão dando os primeiros passos. Os gêneros de jogos também são extremamente diversificados e, a cada dia, eles conquistam novos entusiastas. Se, por um lado, os desenvolvedores de jogos eletrônicos utilizam muita lógica de programação e cálculos matemáticos para viabilizar a existência de um jogo, por outro lado, ainda há toda uma parte criativa não menos importante. O enredo, a história e os personagens de um jogo são extremamente complexos e elaborados atualmente. Há todo um processo criativo envolvido – a imaginação e a fantasia são exploradas de tal maneira a produzir ludicidade. E pensar que há alguns anos o bom e velho Atari era a fonte de muitas diversões para jogadores de gerações passadas. De lá para cá muita coisa mudou, e o fato é que há muita tecnologia de ponta nessa indústria.

Além de toda a parte de desenvolvimento e criação, um jogo também possui palavras. Há diálogos entre personagens e há textos nos elementos gráficos dos jogos. E é aqui que o profissional da palavra entra em cena juntamente com as agências de tradução. Suponhamos que um jogo tenha sido desenvolvido em língua inglesa ou francesa. Digamos que o estúdio que desenvolveu o jogo pretende disponibilizá-lo para um determinado público. Por exemplo, o público brasileiro. Neste momento, é muito comum o desenvolvedor do jogo estabelecer contato com uma agência de tradução para solicitar o tratamento linguístico de todo o jogo, caso não tenha um departamento específico para cuidar disso. A agência de tradução, por sua vez, ao receber um projeto de tradução ou pós-edição de tradução automática nos pares de idioma inglês>português ou francês>português, entrará em contato com o linguista oferecendo serviços nesses pares de idiomas – aliás, o exemplo é muito ilustrativo, pois são os dois pares de idioma com os quais trabalho. O profissional da palavra, por sua vez, ao receber o projeto da agência de tradução, terá a oportunidade de lidar com desafios imprevisíveis, uma vez que um jogo pode envolver outras áreas de especialização. Pense, por exemplo, em um jogo de corrida. Há toda a terminologia automotiva envolvida. São as peças que deixam o carro envenenado, toda a parte visual e estética, o interior. Além disso, caso a corrida aconteça em um circuito de rua, há os nomes e os detalhes desses lugares. Há ainda o registro linguístico. Se a corrida for um racha entre os parças contra a polícia, pode haver histórias e diálogos entre os personagens com muitas gírias e coloquialismos. Na minha opinião, a impressão que tenho trabalhando nos primeiros projetos nessa área é que parece ser uma das áreas mais desafiadoras. Para se ter uma ideia, dependendo do projeto, pode até haver limitações em relação ao número de caracteres no texto traduzido, uma vez que certos elementos gráficos possuem limitações de espaço na tela. Tenho muito a aprender nessa área e muito o que explorar, certamente.

Outra área para a qual fiz trabalhos recentemente foi transcriação. Trata-se de um estilo de tradução que envolve a criatividade. Em linhas gerais, uma empresa pretende lançar um produto em um determinado mercado. Para isto, há toda uma estratégia de localização envolvida no processo, e como disse há pouco, a tradução é uma parte de todo o processo. Pois bem, todo o tratamento linguístico relativo ao produto será feito por um profissional da palavra juntamente com as agências de tradução. O processo de atribuição de trabalho é análogo ao que descrevi acima. Recebi esses trabalhos de um cliente para o qual já trabalho há algum tempo. Tenho uma ótima relação profissional com esse cliente e poderia dizer que o fluxo de trabalho tem uma certa constância. Costumo traduzir muitos trabalhos de tecnologia da informação para essa agência e faz pouco tempo que comecei a receber trabalhos de outras áreas – transcriação, comunicados de impressa da área médica e até um site de Internet. Muito bem, os trabalhos de transcriação foram para o mesmo cliente que contratou a agência de tradução. Todo o processo transcorreu muito bem e fiquei contente com o resultado final entregue. Foi um trabalho extremamente prazeroso e fiz com muito gosto.

Agora, se me permitem, vou partilhar algumas de minhas impressões sobre as experiências envolvendo transcriação. Primeiramente, recebi as ofertas de trabalho por e-mail em duas sextas-feiras consecutivas, bem no fim de tarde. Ambas as ofertas para o par linguístico inglês>português. Antes de atribuir o trabalho, a agência de tradução envia um e-mail com uma oferta para verificar a disponibilidade do profissional da palavra. Neste primeiro contato, o cliente, muito gentilmente, manda uma amostra para uma avaliação prévia do texto a receber o tratamento linguístico. Além disso, o cliente também indica a ferramenta de tradução a ser utilizada no projeto, neste caso o Wordfast Pro – já tive a oportunidade de trabalhar com algumas ferramentas de tradução e destaco as minhas experiências positivas com Trados Studio, memoQ (o recurso para criação de views é formidável), Smartcat, Wordbee, Memsource Cloud, Passolo, XTM, Lingotek e próprio Wordfast (o recurso Transcheck Report chamou a minha atenção).

No primeiro projeto recebido na primeira sexta-feira, verifiquei o e-mail de oferta com o material e senti segurança para traduzir. Conduzi o projeto sem maiores problemas no primeiro final de semana e a entrega foi feita dias depois, dentro do prazo estipulado. Na sexta-feira seguinte, acabei recebendo a segunda oferta – a agência de tradução recebeu o material de seu mesmo cliente para ser traduzido igualmente no Wordfast Pro – e aceitei também. No entanto, encontrei uma certa dificuldade para traduzir a cor de um produto neste segundo projeto. Passei horas tentando encontrar uma solução linguística, mas estava descontente com todas as soluções que havia encontrado até então. Decido, por fim, pesquisar novamente todo o material de referência enviado pelo cliente para garantir que não tinha deixado alguma coisa de lado. E, de fato, havia deixado! Acabei encontrando um documento com as referências para o produto em questão e mais: uma imagem promocional que o ilustrava; havia um documento do Word com uma foto e outros detalhes; no primeiro plano, uma imagem do produto e, no plano de fundo, imaginem, um fenômeno da natureza com as cores exatas do produto. Então era isso! Uma cor inspirada em um fenômeno da natureza. A partir dessa experiência ficou muito mais fácil encontrar a solução e fiquei extremamente satisfeito com o resultado. Poderia dizer que há muito o que aprender na área de transcriação também, mas me sinto empolgado com as primeiras experiências vivenciadas ao longo dos dois projetos. Cada projeto oferece desafios distintos, e a coragem para percorrer as sinuosidades de cada um deles pode ser um elemento considerável para o repertório de habilidades do profissional da palavra. Conte comigo, caso necessite de meus serviços linguísticos.

Muito obrigado pela atenção e espero que você tenha apreciado a leitura. Até a próxima publicação!

 

Sobre a pintura:

Gustave Caillebotte  (1848-1894)

Jeune homme au piano

1876

Óleo sobre tela

Artizon Museum, Tóquio, Japão


Brazilian Portuguese Translations  Brazilian Portuguese Translator #brazilianportuguesetranslations #brazilianportuguesetranslator

Tuesday, June 8, 2021

Quelqu’un a dit que la traduction est …

 






Dans la publication inaugurale du blog Le rapport entre le traducteur et les confrères, j’ai évoqué certains aspects de ce que je considère comme une relation fructueuse entre le traducteur et ses confrères. J’ai mentionné, bien que brièvement, que nous sommes des travailleurs dont la matière première est le mot. Par ailleurs, j’ai également dit que j’allais me servir de cet espace afin de promouvoir mon travail. Mais ce n’est pas seulement cela. Je prétends aussi explorer cet espace en vue d’exercer une activité qui me fait vraiment plaisir : l’écriture. Et je pense que faire cela en public, entre autres choses, pourrait être particulièrement opportun : d’un côté, pour démontrer à mes clients, ou même à l’estimé lecteur intéressé par mon blog, qu’écrire un texte de ma propre production peut être une façon de présenter mes compétences dans le traitement des mots ; de l’autre côté, que le traducteur peut aussi promouvoir la pensée. L’écriture peut être non seulement un moyen d’exprimer des idées, mais aussi un moyen de rendre la pensée intelligible par les mots. Et quand cette capacité d’expression peut se faire dans la langue maternelle, cela devient encore plus gratifiant. Quand je pense que ce texte sera traduit par moi-même en anglais et en français, je suis touché par le fait que d’autres personnes puissent entrer en contact avec ce message. « Écrire » – un verbe séduisant. Aujourd’hui, je ferai quelques considérations sur la valeur de la traduction.

Contrairement à ce que beaucoup de personnes pensent, j’ai une tendance à penser qu’il n’y a pas une valeur a priori attribuée à la traduction. Toutefois, cela ne signifie pas que la traduction n’a aucune valeur, car la traduction est une activité… humaine, faite par des êtres humains ! Et, étant donné qu’il s’agit d’une activité humaine, telle serait son importance. Dans Parerga et paralipomena, Schopenhauer (1788 – 1860), fidèle à sa verve, élabore une critique sur la traduction, il nous dit :

 

Voilà pourquoi chaque traduction reste morte, et son style forcé, raide, dépourvu de naturel. Ou bien elle est trop libre, c’est-à-dire se contente d’un à peu près, et, par conséquent, est fausse. Une bibliothèque de traductions ressemble à une galerie de tableaux qui ne sont que des copies. Et les traductions des écrivains de l’antiquité, surtout, constituent pour ceux-ci un succédané tel que la chicorée par rapport au vrai café.[1]

 

D’ailleurs, une critique ou une provocation, alors que le philosophe de Dantzig était aussi un homme de lettres ? Contrairement à Schopenhauer, je ne pense pas que la traduction soit un travail « mort », bien au contraire ! Elle vit à partir du moment où au moins deux langues commencent à établir une riche relation de convivialité. Et cela se concrétise, dans une large mesure, parce que le traducteur, en vertu de ses compétences linguistiques – toujours en constant perfectionnement – est capable de traduire une œuvre de la langue source à la langue cible, ou un texte, ou un poème, si vous préférez. Autrement dit, au-delà de l’expérience considérable avec la langue maternelle, avec laquelle le traducteur a une relation existentielle profonde, à un certain moment de sa vie le professionnel des lettres a établi un contact intime avec une autre langue en apprenant une deuxième – troisième, quatrième, etc. –, donc, dans une certaine mesure, il a également établi un contact avec d’autres gens (leur mode de vie ou – pourquoi pas ? – leur façon de penser).

Quant au style de l’œuvre, je crois que cette évaluation est légèrement relative. Il y a des traducteur.trice.s dans le domaine littéraire qui font un très bon travail de traduction, et la lecture du texte traduit est vraiment agréable. Le style est fluide et élégant. Le travail de ces professionnels est très important, dans la mesure où certaines personnes ne parlent pas une deuxième langue. Quand une œuvre littéraire dont le texte original a été rédigé, par exemple, en anglais ou en français, est traduite, par exemple, en portugais – ou vice-versa –, le travail du traducteur joue un rôle remarquable : l’activité de traduction serait chargée de promouvoir la rencontre entre l’auteur et le lecteur. En d’autres termes, j’essaie de comprendre le métier de traduction comme une capacité à faciliter le contact entre, au moins, deux personnes, ou si vous préférez, une capacité à construire des ponts. D’autre côté, je pense que la critique de Schopenhauer peut avoir un sens quand un texte traduit n’a pas un résultat final satisfaisant, c’est-à-dire quand l’intelligibilité du texte traduit est compromise, et cela se passe pour diverses raisons. Néanmoins, je pense que le style d’un texte traduit peut être tout à fait élégant quand il est bien traduit.

En ce sens, quand le traducteur reçoit une demande pour traduire une œuvre, il est conscient que son travail doit être bien fait, et que le texte à traduire doit être bien traduit. Les mots évidents ont parfois besoin d’être rappelés. Bien sûr, il y a des difficultés en cours du chemin et il n’est pas toujours possible de trouver la solution adéquate pour la traduction d’un terme ou d’une expression, car, en fonction du texte, certaines choses sont pratiquement impossibles de traduire. Il y a certaines pertes pendant l’activité de traduction, et c’est inévitable, parce que le texte a été conçu dans une autre langue. Il y a des éléments linguistiques et la façon même de penser est mise en jeu. Cela est encore plus évident quand l’œuvre à traduire est un poème. Cependant, je pense que l’activité de traduction peut être particulièrement riche pour le traducteur, et si son travail est capable d’exprimer cette richesse, tant mieux pour le lecteur. Ainsi, je ne suis pas d’accord avec Schopenhauer quand il affirme que dans une bibliothèque d’œuvres traduites, il n’y aurait que des copies. Je pense que, d’un point de vue comparatif, il y a le texte original et le texte traduit. À partir de ce point de vue, les deux sont complètement différents – évidemment. Par contre, quand l’activité de traduction rend le texte intelligible à la langue cible, nous avons un texte traduit qui aurait, entre autres choses, l’idée d’exprimer l’intelligibilité du texte original.

Ainsi, surtout quand il s’agit du texte d’une œuvre littéraire, l’activité de traduction prend des contours créatifs. Comment évaluer un texte traduit ? Quelle est sa valeur pour un lecteur qui, pour une multitude de raisons, ne connaît pas ou ne parle pas la langue de l’auteur ? De nombreux textes classiques écrits en grec ou en latin ont été traduits dans des langues modernes et, grâce au travail de traduction, nous avons pu établir le contact avec l’univers de ces auteurs, même si de manière limitée. Pourtant, les œuvres originales sont uniques et cela constitue l’une de leurs valeurs. D’ailleurs, je pose une question : seriez-vous capable de découvrir les trésors qui nous ont légués les auteurs classiques si vous appreniez une langue ancienne, comme le latin ou le grec ?

Par conséquent, un texte traduit est le résultat final de tout un itinéraire existentiel vécu par le professionnel de la traduction. Et c’est là qui réside la valeur de cette activité. C’est-à-dire, je disais tout à l’heure que j’ai la tendance à considérer qu’il n’y a pas de valeur a priori attribuée à la traduction ; la valeur lui est attribuée par nous, des êtres humains, quand nous découvrons qu’elle est importante pour nous. Quand, d’une certaine manière, elle nous touche. Et cette valeur peut être attribuée de différentes manières. Un lecteur qui a lu un livre traduit peut vivre une expérience phénoménale en le lisant. Alors, il pourra créer des liens avec le texte au point de le considérer comme ayant une certaine importance pour sa vie. Soit parce que l’histoire était touchante, soit parce que les personnages ont des caractéristiques uniques, soit parce que le récit était conduit de manière dynamique. Les raisons sont pratiquement illimitées. En revanche, lire un texte dans sa langue d’origine est une expérience différente et le contact avec cet univers linguistique est hautement enrichissant dans les aspects les plus variés.

Mais Schopenhauer se référait-il uniquement aux livres ? La critique/provocation du philosophe a été faite au 19ème siècle et dès lors beaucoup de choses ont changé. Aujourd’hui, le segment de la traduction est établi et consolidé et, au-delà du domaine littéraire, il existe d’innombrables domaines spécifiques : informatique, technologie, jeux vidéo, affaires, marketing, gouvernement et administration publique, industrie touristique, logistique et transports, et sciences humaines – domaines avec lesquels j’ai des affinités et travaille –, entre autres. Avec l’expansion du capitalisme, l’économie est devenue de plus en plus diversifiée et de nouveaux marchés ont émergé. Et, plus récemment, avec la diffusion de l’ordinateur et de l’Internet, les frontières économiques sont devenues pratiquement inexistantes – ce qui ne signifie pas que tous nos problèmes ont été résolus, bien au contraire ! Nous continuons à être confrontés aux problèmes de la pauvreté, de la violence et de nombreux autres maux (mais ceci est une autre discussion).

L’ordinateur personnel n’existait pas encore au moment où Schopenhauer a écrit sa provocation. De nombreuses années ont passé, et dans mon itinéraire existentiel, j’ai eu l’occasion d’assister à la popularisation de l’utilisation de ces machines, ici au Brésil, alors que j’étais adolescent ; et puis, l’utilisation d’Internet serait également popularisée. En ce sens, depuis très tôt, j’ai adopté l’habitude d’utiliser la technologie. En fait, mon premier emploi était lié aux technologies de l’information, un marché auquel j’ai pu me consacrer pendant quelques années de ma vie, c’est-à-dire au moment où je quittais l’adolescence et entrais dans l’âge adulte. Cela a été un moment important pour mon mûrissement, car j’ai pu non seulement établir un contact riche avec cet univers technologique, mas aussi comprendre certains détails de ses subtilités.

Aujourd’hui, avec le scénario technologique consolidé et l’Internet en pleine activité, les traducteurs ont pu intégrer des outils diversifiés dans leurs activités quotidiennes. Avec la diversification de l’économie et l’émergence d’une grande variété de marchés, la demande de services de traduction augmente chaque année. Et l’un des domaines qui me sont familiers serait… la technologie de l’information : en particulier, matériel informatique, logiciels, ordinateurs, systèmes, réseaux, manuels d’utilisation informatique et traduction de site web. Être un expert dans le domaine de la technologie de l’information est une grande satisfaction et j’ai à chaque instant la possibilité de traduire de nouveaux projets dans ce domaine. Je suis vraiment reconnaissant à mes clients pour la confiance qu’ils accordent à mon travail. Je suis en train de suivre les dernières évolutions technologiques, car ce domaine est en constante transformation. L’utilisation de l’intelligence artificielle dans le secteur de la traduction est de plus en plus présente, et le débat sur le rôle de la traduction automatique par rapport à la traduction humaine se déroule dans la même mesure. Je prétends explorer le sujet de l’intelligence artificielle dans une autre publication. Soyez à l’affût !

Je me demande ce que Schopenhauer penserait aujourd’hui, non pas sur la traduction en tant que produit final, mais du métier du traducteur, c’est-à-dire de l’activité de traduction. Aujourd’hui, nous avons la possibilité d’utiliser les ressources technologiques les plus variées, des puissants ordinateurs portables, en passant par les logiciels les plus divers, jusqu’à une connexion Internet de haut débit capable d’ouvrir la communication avec des personnes du monde entier en un seul clic. Pour augmenter notre productivité, il est très commun d’utiliser un outil de traduction assistée par ordinateur (outil TAO). Il s’agit de logiciels dotés de ressources puissantes qui offrent au traducteur, entre autres choses, la capacité d’augmenter sa productivité et de garantir la cohérence terminologique d’un projet – une caractéristique de grande importance, surtout quand nous travaillons sur des projets complexes, avec de nombreux mots, parmi lesquels beaucoup sont répétés. Comme si cela ne suffisait pas, ces logiciels offrent également aux traducteurs la possibilité d’enregistrer une mémoire de traduction, c’est-à-dire un fichier alimenté par chaque projet, dans les paires de langues respectives, où sont enregistrées les correspondances de traduction pour des segments de phrase entiers. Sans oublier la possibilité de générer des bases terminologiques, c’est-à-dire des glossaires, qui rendent le résultat final précis et cohérent du point de vue de l’uniformité terminologique. Voici le scénario actuel de l’activité de traduction de manière générale. Et penser que dans un passé pas si lointain, les écrivains utilisaient une plume pour écrire …

De cette façon, au-delà de la valeur affective, nous pouvons attribuer une valeur commerciale à un texte traduit. L’industrie de la traduction génère des richesses et renforce les liens commerciaux entre les gens. Imaginez la situation suivante. Une certaine marque souhaite diffuser ses produits et consolider sa présence sur un nouveau marché. Pour réussir cela, cette même marque devra développer une stratégie qui passe, entre autres choses, par la communication. Dans ce cas, les services d’un traducteur est mis en jeu. En fonction de la manière par laquelle cette marque souhaite pénétrer ce marché, tout le matériel lié au produit, c’est-à-dire les documents, les contrats, les sites web, le matériel publicitaire, ou même les manuels techniques et informatifs, auront besoin d’un traitement linguistique. Par conséquent, le travail d’un traducteur qualifié devient essentiel pour le succès de cette entreprise, étant donné qu’il possède les qualifications et les compétences requises pour donner le traitement linguistique approprié au matériel à traduire – ou même à localiser. Et je conclus ce texte par la réflexion suivante : comment serait la vie sans le travail d’un traducteur ? Comment une entreprise pourrait-elle conquérir de nouveaux marchés si elle n’avait pas le travail d’un traducteur dans sa stratégie de communication ? Comptez sur moi, si vous avez besoin de mes services linguistiques.

Merci beaucoup de votre attention et j’espère que vous avez apprécié la lecture.

À la prochaine publication !

 

Références :

[1] Schopenhauer, A. Parerga et paralipomena. Traduction : Auguste Dietrich et Jean Bourdeau. Édition établie et présente par Didier Raymon. Paris : Éditions Robert Laffont, S.A.S, 2020.

 

Sur la peinture :

Paul Cézanne (1839-1906)

Pommes et oranges

Vers 1899

Huille sur toille

Musée d’Orsay, Paris, France


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