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Tuesday, January 21, 2025

Ainda é preciso ser leitor?







 

As pessoas grandes nunca entendem nada por elas mesmas, e é muito cansativo para as crianças ficarem sempre explicando as coisas para elas

Antoine de Saint-Exupéry, O pequeno príncipe


 

    Assim como algumas pessoas, gosto da companhia dos livros. E passei a valorizar ainda mais esse convívio depois que comecei a refletir sobre tudo o que um rastro de palavras impresso em uma folha de papel pode representar. Em minha pessoa, a faceta de filósofo e a de tradutor têm algo em comum: ambas encontram na organicidade das palavras certos nutrientes que estimulam o nascimento de novos pensamentos. O filósofo, munido de seu ceticismo, em uma espécie de prontidão, coloca sob suspeita o que é passível de questionamento. O ceticismo oferece instrumentos importantes para a boa manutenção da lucidez, sobretudo nos dias em que um espesso nevoeiro paira na atmosfera. O tradutor, munido de suas habilidades tradutórias, sempre promovendo o convívio estreito de pelo menos dois idiomas, viabiliza a comunicação. A tradução oferece instrumentos importantes para ampliar as capacidades de comunicação, sobretudo nos dias em que a arte da conversação anda sendo tão maltratada. Neste sentido, quando se trata de palavra escrita, o olhar apreende a leitura que perpassa simultaneamente o filósofo e o tradutor.

    Mas não quero falar sobre a faceta de filósofo, nem sobre a faceta de tradutor. Quero apenas explorar um pouco mais esse lado que permeia ambas as facetas: o hábito da leitura. Filósofo e tradutor, também são, antes de mais nada, leitores. O filósofo encontra nos livros legados ao longo da história da filosofia as mais diversas correntes de pensamento. E cada uma delas pretende transmitir os mais variados ensinamentos. Entretanto, o filósofo encontra no ceticismo uma maior afinidade de pensamento. O tradutor encontra na sua atividade profissional as oportunidades para edificar os mais diferentes vínculos com a vida cotidiana. E cada uma dessas oportunidades representa a viabilização prática de diferentes virtudes sociais. Entretanto, o tradutor encontra na tradução técnica os meios para colocar em prática algumas habilidades e reconhece a influência de Wittgenstein e suas reflexões sobre a linguagem durante os momentos de trabalho. Assim, filósofo e tradutor encontram no convívio com as palavras um hábito formidável. De um lado, temos a reflexão crítica, e de outro, a investigação incessante em busca do significado e da melhor solução tradutória para viabilizar a comunicação.

    O convívio com os livros é uma maneira de aperfeiçoar e dignificar o gênero humano. Sou aquele tipo de pessoa que mantém uma relação dúbia com as palavras. Calma, eu explico! Leio por prazer e por obrigação. Quando estou lendo por prazer, sinto um tipo de satisfação muito agradável em virtude da ausência de qualquer tipo de obrigação: escolher um exemplar na ainda modesta biblioteca – edificar uma biblioteca é um empreendimento para uma vida inteira – é um momento muito gostoso. Passar algumas horas na companhia de um autor ou autora é um momento de encontro. As palavras escritas no papel oferecem a oportunidade de iniciar um certo tipo de comunicação: autor e leitor vivem nas palavras o ponto de encontro. Mas, ler por obrigação, durante as rotinas tradutórias, não implica necessariamente a ausência de prazer na leitura. Trabalhar com diferentes projetos de tradução, com prazos curtos e os mais variados tipos de exigência, é algo apaixonante. Os desafios, os diferentes textos, as informações envolvidas, os mais diversos aspectos representam uma oportunidade de colocar em prática diferentes habilidades tradutórias. E o tradutor sempre aprende algo novo em suas atividades, uma vez que as habilidades podem ser aperfeiçoadas em diferentes situações.

    A escrita deixa rastros de pensamentos em uma folha de papel em branco. Palavras, frases, parágrafos, páginas, capítulos e eis que temos um livro. Em incontáveis horas de trabalho, o percurso de um itinerário existencial torna-se inteligível por meio de palavras. Horas e horas de trabalho, mas e quanto a todo o tempo de vivências propriamente dito? E quanto ao tempo de maturação das reflexões? Com toda a riqueza da matéria-prima, quais são os instrumentos de trabalho para moldá-la? Papel e caneta sobre a escrivaninha, uma luminária para dissipar a penumbra, mais um corpo disposto a pensar... sobre o que escrever. Ainda que o computador esteja presente na vida cotidiana, muitas pessoas ainda escrevem dessa maneira. Uma palavra que desabrocha nos rincões mais recônditos, num impulso elétrico, assim como Nietzsche dizia, circula pelo corpo inteiro: da cabeça desce pelos braços, passa pelas mãos e flui pela ponta dos dedos até desembocar na caneta empunhada que suja a folha do papel com as cores de símbolos estranhamente desenhados e curiosamente decifráveis pelo testemunho atento do olhar: existo porque a palavra que está em mim está no mundo.    

    Em épocas passadas, mas num passado não tão remoto, as coisas aconteciam mais ou menos assim. Escritores acumulavam calhamaços de papel escrito em seus escritórios. Os manuscritos originais, como se costuma dizer, cheios de rastros de pensamento. E pensar que, num passado mais remoto, essa mesma prática era bem mais complicada, por razões óbvias. Avanços tecnológicos incipientes, carência na adequação de recursos materiais. Por exemplo, na Antiguidade era comum registrar as informações em blocos de pedra, tábuas ou papiro. Houve a adoção do papel e uma pena passou a ser usada para desenhar as palavras. O trabalho na escrivaninha era rudimentar, uma vez que não havia energia elétrica, logo a luz de uma vela era responsável por dissipar a penumbra e viabilizar a atividade de pensamento.

    O surgimento da escrita foi algo notável para a civilização. A linguagem tornou-se exprimível e interpretável por meio de uma língua determinada em símbolos imagéticos. Os símbolos desenhados. As teorias da comunicação indicam que, antes da escrita, a oralidade era o meio de transmissão primordial que viabilizava as trocas comunicativas. Ou seja, a comunicação estaria toda alicerçada nos sons, e neste sentido, sob o ponto de vista da expressão corporal, oralidade e audição teriam um papel privilegiado na comunicação. É curioso notar que a possibilidade de sistematização alfabética da escrita representou uma nova maneira de expressar e explorar a linguagem. A comunicação passa a se estender para outras regiões do corpo, como os braços, as mãos e olhar, para expressar a língua por meio da escrita. Se há comunicação, é porque muitas regiões do corpo estão envolvidas na expressão da linguagem. Assim, surge a possibilidade de alicerçar a comunicação escrita num meio materialmente palpável, como blocos de pedra, tábuas ou papiro. Aliás, já havia comunicação antes da escrita? Os sons desordenadamente emitidos e os movimentos corporais poderiam ser caracterizados como um modo de comunicação? O que é comunicação? Os animais não humanos são capazes de se comunicar? Suspeitas à parte, o fato é que a escrita surgiu num dado momento.

    No atual estado em que as coisas se encontram, talvez boa parte dessas questões não passe pela cabeça de muitas pessoas, afinal de contas as palavras sempre estiveram presentes na vida cotidiana de modos diversos. Entretanto, talvez essa noção seja um tanto quanto cômoda, uma vez que pensar sobre a origem da escrita e suas implicações ulteriores para a cultura pode ser um trabalho de fôlego, sobretudo quando alguém deseja articular uma compreensão mais ampla e aprofundada sobre o tema. O desenvolvimento da linguagem é uma conquista civilizacional. E quanto mais pessoas são alfabetizadas, na língua materna e eventualmente em outras línguas, tanto melhor para todo mundo. Por exemplo, uma pergunta parece ser especialmente oportuna agora. Qual foi o impacto que a escrita provocou na cultura então vigente quando ela surgiu na Antiguidade? O status quo da cultura oral estava estabelecido, e assim, tenho a impressão de que a novidade deve ter gerado as mais diversas reações. Porém, parece não fazer muito cabimento explorar uma pergunta dessa envergadura no espaço de um blog – e nem seria essa a minha intenção. Mas, ainda assim, trago deliberadamente a pergunta para que o leitor ou leitora seja estimulado com a proposta de uma possível reflexão.

    A cultura ocidental tem dois autores cujas obras são consideradas fundamentais. Estamos falando de Homero e Hesíodo. Há controvérsias em torno da figura desses dois poetas. Há teorias que defendem a ideia de que esses autores existiram, mas há teorias que defendem a ideia de que diversos outros poetas foram unificados nas figuras de Homero e Hesíodo, ou seja, o trabalho coletivo de inúmeros poetas foi reunido e o resultado desses trabalhos foi creditado unicamente ao nome desses dois poetas. Homero é autor da Ilíada. E Hesíodo é autor de Os trabalhos e os dias. Os poemas homéricos eram transmitidos pela oralidade, assim como os poemas hesiódicos. Na obra de Homero, os poemas épicos relatam os feitos heroicos e figuras lendárias durante a Guerra de Troia, e neste sentido, temos o ideal da cultura aristocrática, onde a coragem era ressaltada como um valor capital. Na obra de Hesíodo, também há o relato de feitos heroicos, entretanto, Hesíodo narra esses feitos no âmbito da vida campesina, com o trabalho árduo no campo por meio de pessoas que cultivavam penosamente a terra com o suor do rosto para garantir a manutenção da vida. Braços, mãos e corpos. Eis o valor e a importância do trabalho.

    Ou seja, na Grécia Arcaica, temos uma cultura eminentemente oral. Os aedos viajavam por diferentes lugares e recitavam esses poemas. As pessoas ouviam aqueles versos e todo um imaginário foi sendo fecundado – é importante notar que, conforme a própria civilização torna-se culturalmente diversa, muitas daquelas noções passaram a ser problematizadas. Originalmente, o poema é um tipo de expressão que privilegia a oralidade, pois toda a sua estrutura métrica, as sílabas poéticas e todo o esquema rítmico de versificação e entonação oral teriam como objetivo facilitar a memorização dos versos e provocar um efeito sonoro agradável aos ouvidos. Isto é, o trabalho dos poetas tem tudo a ver com um trabalho de memória. As habilidades em torno da memória eram habilidades extremamente valiosas, uma vez que ser capaz de se recordar de uma infinidade de versos era uma tarefa bastante complexa. E não menos complexa eram as habilidades em torno da recitação adequada daqueles poemas, com todo o trabalho de expressão oral envolvido.

    Assim, esse tipo de cultura passou a ser transmitido ao longo de gerações. As próprias comunidades e os mais diferentes tipos de sociabilidade passaram a se organizar em torno dessa noção. E com o surgimento da pólis, temos as condições favoráveis para o florescimento do pensamento filosófico, histórico, científico, além da literatura, arquitetura e da própria Democracia. É nesse ambiente que a escrita começa a se propagar. Mas não pense que a adoção da escrita foi um acontecimento sem maiores repercussões. Muito pelo contrário! Adotar a escrita representava naquele momento uma mudança profunda na maneira de se comunicar ou até mesmo de organizar a sociabilidade. Tendo em vista que as pessoas estavam acostumadas a transmitir o legado cultural por meio da oralidade, então quais seriam as possíveis implicações para a cultura com a adoção da escrita? Se os poetas tiveram um papel relevante na tradição oral, o que poderia acontecer com eles com o surgimento da escrita? Se um poeta usasse a memória para transmitir os versos, logo ela exercia um papel central nessas práticas, então quais seriam os possíveis impactos para a memória com a adoção da escrita?    

    É curioso notar, por exemplo, a posição de Platão à época. Segundo o filósofo, a adoção da escrita poderia gerar sérias implicações para a cultura. Platão considerava que o texto escrito poderia ser uma fonte de infinitas controvérsias. Diferentemente de uma recitação oral, onde é necessário haver a presença de uma pessoa para recitar um poema, as palavras no papel poderiam circular livremente, sem haver a necessidade da presença de uma pessoa, uma vez que a existência do texto passaria a ser um evento autônomo e independente. Ou seja, com a adoção da escrita, autor e texto poderiam existir de maneira autônoma e independente, sem que ambos estivessem necessariamente presentes para que a mensagem se tornasse inteligível. Além disso, um outro problema levantado por Platão considerava a interpretação. Como um autor poderia explicar as suas próprias ideias com o leitor tendo acesso direto ao texto sem haver a necessidade de sua presença? Uma interpretação poderia estar equivocada, ou ainda, um leitor poderia ter dúvidas. Não bastasse isso, Platão considerava que o texto escrito poderia representar um impacto para o pensamento, pois se as palavras fossem escritas, não haveria mais a necessidade de recorrer à memória, ou ao próprio pensamento, para transmitir a comunicação. Tudo ficaria registrado em outro lugar. Isto é, haveria o declínio do uso da memória e do pensamento, e isso poderia representar um sério problema. Algumas dessas impressões estão presentes em Textos básicos de linguagem de Platão a Foucault.

    Platão introduziu a problemática em torno da sociedade letrada. Adotar as letras como meio de expressão, promoção da cultura e manutenção das instituições implica difundir e ensinar a aquisição dessas habilidades entre as pessoas. A escrita foi adotada, e as objeções levantadas por aquele filósofo foram importantes no sentido de problematizar e estimular o debate sobre aquilo que representou uma mudança cultural profunda na Antiguidade. Muitas obras foram escritas e graças à adoção dessa prática podemos ter acesso ao teor de certos textos com valor inestimável. Registrar um texto por meio de palavras tem a vantagem de poder legá-lo à posteridade. Uma obra literária pode romper a barreira do efêmero para tornar-se parte do conjunto de um patrimônio cultural. Hoje, temos uma variedade incrível de livros. Os assuntos e os títulos são diversos. E, além disso, podemos ter um convívio muito gostoso com os clássicos escritos por autores e autoras de outras épocas. Mas não pense que não houve eventos traumáticos envolvendo a escrita ao longo da história. Por exemplo, como avaliar tudo o que foi perdido com o incêndio da Biblioteca de Alexandria, momento em que os textos com teor inestimável para a humanidade arderam em chamas? Fahrenheit 451? Não bastasse isso, ainda na Antiguidade, como mensurar as implicações decorrentes do fechamento oficial das escolas de filosofia para o livre curso do pensamento?

    Desse modo, é importante considerar o papel que os livros e a escrita exercem para a promoção dos valores civilizacionais. Diferentes gêneros textuais, diferentes autores e autoras e diferentes estilos. Uns dizem que encontramos em cada um desses elementos um bom pretexto para nos olharmos diante do espelho. Outros dizem que encontramos em cada um desses elementos um bom pretexto para conhecer outras personalidades. Schopenhauer diria que o estilo é a expressão da própria personalidade. Assim, a experiência de leitura pode ser inquietante, provocativa, zombeteira, edificante, subversiva ou mesmo tranquila. Há quem diga que bons autores são aqueles que conseguem colocar em movimento as paixões. Cada camada de leitura, um novo afeto, novas impressões. Há livros que conseguem deixar o leitor ou leitora com os olhos marejados, com um nó na garganta, como no caso de Os miseráveis, de Victor Hugo. Mas há livros que conseguem levar o leitor ou leitora para um lugar ingenuamente terno, mas, ao mesmo tempo, sem deixar de lado a potência da mensagem, como no caso de O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. E não há como deixar de notar nos textos filosóficos o trabalho de pensamento quando alguém se propõe a levá-lo ao limite.

    Neste sentido, os livros podem ser uma fonte de reflexão muito fecunda para a promoção de atos de benevolência. Essa virtude social anda de mãos dadas com os livros. A benevolência, por exemplo, exerce um papel notável na filosofia de David Hume. Podemos considerar a benevolência como uma espécie de cimento que concretiza o vínculo entre as boas ações. Hume estudou na França, e além disso, foi amigo dos philosophes, entre os quais, Denis Diderot –  juntamente com D’Alembert, Diderot foi o editor responsável por um dos maiores empreendimentos editorais do Séc. XVIII, a Encyclopédie. O filósofo escocês sempre foi muito bem acolhido todas as vezes em que esteve em território francês, e isso é um forte indicativo de que Hume praticava e tinha um grande apreço pela sociabilidade, ou seja, um traço concreto da benevolência. É importante ressaltar que Hume foi um filósofo simplesmente apaixonado pela literatura. Além de filosofia, Hume devorava outros gêneros, como história, ensaios e os mais diversos temas. Ele foi um verdadeiro frequentador das belas letras, sobretudo dos clássicos latinos. Num dado momento de sua vida, Hume chegou ainda a ser bibliotecário, o que viabilizou o acesso a uma infinidade de livros. A paixão pelos livros nutria as suas reflexões e podemos perceber isso quando lemos os seus textos. Assim, a paixão de Hume pelas belas letras pode servir como um incentivo para que o leitor ou leitora do blog trilhe os seus próprios caminhos pelas mais diversas páginas de um livro.

    Reservar algum momento do dia para cultivar o hábito da leitura pode ser uma atitude transformadora. Ler é edificante. Ou não, dependendo do ponto de vista! Alimentar o pensamento com novas ideias pode ser desafiador. Por meio das leituras, é possível aperfeiçoar outra virtude social extremamente benéfica para o bom convívio social, uma vez que o contato com as palavras pode aperfeiçoar o gênero humano. É aqui que entra em cena a simpatia, um outro componente filosófico presente em Hume. Para que haja a benevolência, é necessário reconhecer a importância e o valor da figura do gênero humano. Seres humanos têm sentimentos e podem sofrer. A simpatia pode ser considerada como um vetor para o direcionamento da benevolência. Se as ações benevolentes podem ser consideradas uma espécie de cimento que concretiza o vínculo entre as boas ações é porque existe um ser humano que será perpassado pela benevolência durante a sua propagação. A simpatia nasce quando consideramos a possibilidade de nos colocarmos no lugar de outrem, ou seja, quando estamos propensos a nos sensibilizar com as dores, angústias e o sofrimento alheios. Ou seja, quando literalmente nos colocamos na pele de outra pessoa. Mas a simpatia não está restrita simplesmente ao âmbito dos seres humanos; ela também se estende aos outros animais e formas de vida. Eles também têm sensibilidade, sofrem, pensam, ainda que de maneira distinta da nossa, e neste sentido, merecem respeito. Assim, não posso deixar de lembrar da simpatia que os cães, por exemplo, sentem em relação a tutores ou tutoras. É o caso do cocker spaniel Flush, personagem central da obra homônima de Virginia Woolf, que dava cambalhotas de felicidade quando via sua tutora. Sendo assim, por meio das leituras, afeiçoamo-nos com os mais diversos personagens. Como não se compadecer com a história de Fantine e Cosette? O que dizer da figura dos Thénardiers? E o que fizeram com Cosette? Depois que os “miolos secaram”, tamanha era a dedicação à leitura, em virtude do acesso a uma ampla biblioteca, como não se sentir tocado quando D. Quixote decidiu se tornar cavaleiro e sair pelo mundo em busca de aventuras com o seu companheiro Sancho Pança? Como não ficar perplexo com Os sofrimentos do jovem Werther? Por isso, aprendemos também a exercitar a gratidão pelos escritores e escritoras por terem sido capazes de imaginar histórias tão valiosas, além de, num ato de generosidade, terem partilhado cada uma delas conosco.

    Sendo assim, quando o cultivo da simpatia nasce entre as pessoas, o ambiente torna-se propício para o cultivo de outra virtude social. Estamos falando da generosidade. Hume considera que, ao contrário de outros filósofos, como é o caso de Thomas Hobbes, os seres humanos não são unicamente egoístas. Além do egoísmo, ou seja, do amor próprio e da consideração de nossos próprios interesses, também somos altruístas, ou seja, consideramos o bem-estar e os interesses alheios. Em muitas de nossas relações cotidianas, ou até mesmo em nossas relações com os outros animais, agimos tendo em vista o bem-estar alheio. Por exemplo, quando estamos com um carrinho de compras na fila do supermercado e uma pessoa chega, com alguns poucos itens, e pergunta se não seria possível ceder o nosso lugar para que ela possa passar na frente. Obviamente, não seremos egoístas. Ou ainda, quando um gatinho de rua pula o muro de nossa casa e passa a conviver conosco em nosso quintal. Obviamente, acolheremos aquele animalzinho, alimentá-lo-emos, daremos água e carinho. Nesses dois exemplos, demonstramos como o altruísmo é capaz de promover ações desinteressadas. No primeiro caso, ele foi capaz de produzir um ato de gentileza. No segundo caso, ele foi capaz de produzir um ato de acolhida. Por outro lado, além das relações entre seres humanos e animais, também é necessário considerar a relação entre seres humanos e natureza. E essa relação é sobretudo filosófica. Os nossos interesses particulares também devem levar em consideração a natureza. Quando as ações humanas fazem intervenções na natureza, os fenômenos naturais tendem a se intensificar, e assim, o que já era dotado de força, tende a se fortalecer ainda mais. Neste sentido, se levarmos em conta apenas os interesses humanos em detrimento dos interesses da natureza haverá um desequilíbrio na balança do egoísmo vs. generosidade. Assim, para haver o equilíbrio, também é necessário considerar a natureza para que ela não se volte contra os seres humanos, animais e outras formas de vida.

    Entretanto, passamos por momentos de dificuldade ou dolorosos, e em momentos como esses, o convívio com os livros e todos os modos possíveis de expressão artística, ou até mesmo com amigos, tornam-se inestimáveis. Com eles, podemos encontrar uma fonte importante para o cultivo de novas reflexões. Nas belas letras e nas artes, poderemos visitar autores, autoras e artistas para que os nossos pensamentos sempre estejam em movimento. A literatura, as belas letras e as artes em geral desempenham um papel considerável no aperfeiçoamento do gênero humano, assim como foi dito, suavizando os seus traços. Assim, pensar juntamente com as outras pessoas, sobretudo com as pessoas que têm lições importantes para partilhar, torna a vida mais leve, e a sensação que temos é como se estivéssemos vivendo um grande passa tempo em detrimento dos golpes imprevisíveis da fortuna. A tradição filosófica ocidental, por exemplo, tem mais de 2.500 anos e certamente muitas questões e temas com os quais filósofos e filósofas vêm pensando podem ser uma fonte bastante considerável de ensinamentos. Em especial, a “escola” cética, que tem como prática a suspensão do juízo, cujo fim é a tranquilidade, sempre mantendo sob suspeita as alegações dogmáticas. Nas palavras, em especial, podemos encontrar a seiva vital para nutrir as nossas ideias. E, assim, o hábito da leitura pode se tornar uma experiência transformadora. A arte da conversação, por outro lado, desempenha o papel promotor das mais diversas trocas intersubjetivas. É o que ocorre quando terminamos de ler um livro e passamos a partilhar as impressões de nossa leitura com as outras pessoas.

    Caro leitor ou leitora, gostaria de concluir com um alerta. Observe que os argumentos expostos ao longo deste ensaio não têm nenhuma pretensão de revelar a natureza das coisas. Como disse em outras oportunidades, a argumentação cética tem uma pretensão bem mais modesta em relação ao empreendimento filosófico. Por exemplo, quando vamos ao consultório médico é comum haver a solicitação de certos exames para fazer o acompanhamento rotineiro e saber como anda o estado de saúde. Quando retornamos, já com os exames em mãos, ficamos sabendo dos resultados. Então, dependendo dos tipos de exame e dependendo dos resultados, eles poderão indicar certas carências, como a falta de certas vitaminas, momento em que provavelmente receberemos uma prescrição indicando a necessidade de suplementação para repô-las. De maneira análoga, a falta do hábito da leitura apresenta indícios de longa data indicando a manifestação de certas carências, o que é possível observar por meio de certos “sintomas” aparentes, e por isso, a recomendação da leitura teria o simples objetivo de 1) suprir algumas carências em decorrência da ausência do hábito da leitura – obviamente para quem não cultiva o hábito –; e 2) reforçar o incentivo para quem já cultiva o hábito, tendo em vista que, por meio das palavras, pela diversidade de leituras e pela visitação a diferentes autores e autoras poderemos encontrar uma suplementação balanceada e adequada para a boa manutenção das necessidades intelectuais.

    Muito obrigado pela atenção e espero que você tenha apreciado a leitura. Até a próxima publicação!

 

Referências bibliográficas:

 

BRADBURY. R. Fahrenheit 451. Trad. Cid Knipel. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2020.

CORDERO, N. L. A invenção da filosofia. Trad. Eduardo Wolf. São Paulo: Odysseus Editora, 2011.

GOETHE, J. W. Os sofrimentos do jovem Werther. Trad. Marion Fleischer. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

HESÍODO. Os trabalhos e os dias. Trad. Luiz Otávio Mantovaneli. São Paulo: Odysseus Editora, 2011.

HOMERO. Ilíada. Trad. Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013.

HUGO, V. Os miseráveis. Trad. Frederico Ozanam Pessoa de Barros. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2017.

HUME, D. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora Unesp, 2003.

MARCONDES, D. Textos básicos de filosofia da linguagem de Platão a Foucault. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

NIETZSCHE, F. W. Sobre verdade e mentira. Trad. Fernando Moraes de Barros. São Paulo: Hedra, 2007.

PEREIRA, O. P. Rumo ao ceticismo. São Paulo: Editora Unesp, 2007.

SAAVEDRA, M. C. O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha. Trad. Sérgio Molina. São Paulo: Editora 34, 2016.

SAINT-EXUPÉRY, A. D. O pequeno príncipe. Trad. Rafael Arrais. São Paulo: Faro Editorial, 2022.

SCHOPENHAUER. A. O mundo como vontade e como representação (1º tomo). Trad. Apr. Notas e Índices: Jair Barboza. São Paulo: Editora Unesp, 2005.

SMITH, P. O que é ceticismo. São Paulo: Brasiliense, 1992.

______. O ceticismo de Hume. São Paulo: Loyola, 1995.

THOMAS, R. Letramento e oralidade na Grécia Clássica. Trad. Raul Filker. São Paulo: Odysseus Editora, 2005.

WILSON, A. M. Diderot. Trad. Bruna Torlay. São Paulo: Perspectiva, 2012.

WITTGENSTEIN, L. Investigações filosóficas. Trad. Marcos G. Nontagnoli. Rev. da Trad. e Apr.: Emmanuel Carneiro Leão, Petrópolis: Vozes, 2009.

WOOLF, V. Flush. Trad. Jorio Dauster. Pref. Anna Snaith. Ilustrações: Vanessa Bell, São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2020.


Sobre a pintura:


Vincent van Gogh (1853-1890)

Os comedores de batata

Óleo sobre tela sobre painel

KM 109.982

Kröller Müller Museum


Brazilian Portuguese Translations, Brazilian Portuguese Translator #brazilianportuguesetranslations #brazilianportuguesetranslator

Monday, October 7, 2024

Filosofando ao modo cético: sobre o tropo dos animais e investigação

 




Em um sábado pela manhã, uma torrente de pensamentos, dessa que nasce espontaneamente, passou a acompanhar os meus passos ao longo do trajeto para a aula de espanhol. Foi na rua, caminhando pela calçada, vendo o movimento da cidade. Aliás, especificamente no meu caso, esse tipo de fenômeno é muito comum, sobretudo após a pergunta “o que é filosofia?” ter surgido no horizonte de nosso itinerário existencial. Muito comum, não! Poderia dizer mesmo que a atividade é praticamente incessante. Vislumbrar a pergunta, tentar compreendê-la, depois passar a cultivá-la, e finalmente, tentar respondê-la, pode ser um empreendimento bastante sedutor, empolgante e desafiador, cujos dividendos podem ser contabilizados em termos de satisfação com as conquistas advindas dos avanços paulatinos. Por outro lado, lidar com esse mesmo empreendimento não deixa de ser cheio de desafios, dúvidas e questionamentos – certamente –, em especial quando permitimos a livre e genuína manifestação de pensamento. Assim, filosofar pode ser uma prática para uma vida inteira. Mas, perceba que a pergunta é um tanto quanto desconcertante, assim como já foi dito em “Uma história de um livreto com as ‘suas páginas já amareladas’”,  e neste sentido, a pergunta “o que é filosofia?” tem tudo a ver com um modo muito singular de pensamento, ou seja, estamos falando do pensamento filosófico.

Há alguns dias, estava relendo as Hipotiposes Pirrônicas, do médico e filósofo Sexto Empírico. Mais uma releitura, aliás, pois revisito este texto com certa frequência e de tempos em tempos. Há certos livros que fazem parte de nossas vidas de uma maneira muito especial. É impressionante, quando estamos dispostos a amadurecer e aprofundar os nossos conhecimentos em relação a uma certa linha de pensamento, como cada nova releitura é capaz de evidenciar novas nuances e camadas de sutilezas inéditas – que até então haviam sido ignoradas. Ignoradas, não por negligência ou por falta de atenção, mas simplesmente porque, quando revisitamos o texto, estamos acompanhados e nutridos pela maturação de leituras prévias, ou seja, estamos acompanhados pelo amadurecimento de nossas próprias reflexões. Mas não é só isso! No meu caso, tenho por hábito ler outros pensadores e pensadoras. Assim como foi dito em outras publicações, tenho interesse em continuar lendo e estudando outras filosofias, pois, segundo o meu ponto de vista, é muito importante manter a constância das leituras. A tradição ocidental produziu muita coisa e nunca é demais ampliar os nossos horizontes filosóficos. E, especificamente neste ano de 2024, dediquei boa parte de meu tempo livre para ler O mundo como vontade e como representação, de Arthur Schopenhauer – caso o leitor ou leitora esteja acompanhando o nosso blog, será possível notar em outras publicações que este filósofo já esteve presente por aqui quando tive a oportunidade de apreciar a sua posição em relação à tradução. A leitura desse livro estava na minha lista de leituras já fazia um bom tempo. Quando se trata de estudos filosóficos, estudar uma nova linha de pensamento e tentar compreender um novo pensador ou pensadora é um hábito muito benéfico para o nosso próprio amadurecimento filosófico. Aliás, o livro de Schopenhauer apresenta uma seção específica voltada para uma abordagem crítica em relação à filosofia kantiana, o que me deixou muito feliz como um leitor que carrega uma bagagem de leituras provenientes da “escola” cética.

Digressão à parte, voltemos ao texto de Sexto Empírico. Na primeira parte das Hipotiposes, Sexto Empírico apresenta os aspectos gerais do ceticismo. Observe que, neste caso, o médico e filósofo tem em mente o ceticismo pirrônico, cujo fundador foi Pirro de Élis. Como Pirro transmitia os seus ensinamentos pela oralidade, ele não deixou nada escrito, e assim, o trabalho de Sexto Empírico foi decisivo para que o pensamento de Pirro pudesse ser conhecido depois que foi legado à posteridade. Ou seja, o texto de Sexto Empírico resgata e expõe a sua visão sobre o ceticismo pirrônico. Assim, nesta primeira parte, por meio de um texto muito acessível, cuja exposição é muito simples, mas não menos articulada, encontramos, como foi dito acima, os aspectos filosóficos mais gerais. Diferentemente das escolas dogmáticas, o ceticismo não teria a pretensão de oferecer um sistema filosófico. Para os céticos da antiguidade, a pretensão em relação ao empreendimento filosófico era muito mais modesta, ou seja, não se tratava de apresentar ao mundo um relato hermeticamente sistematizado sobre a natureza das coisas, muito pelo contrário! Segundo eles, o que estava ao nosso alcance era um relato bem mais despretensioso, ou seja, algo como uma descrição em relação à aparência das coisas. Diferentemente dos sistemas dogmáticos, que articulavam as suas respectivas filosofias, os céticos viam em cada um desses sistemas concepções teóricas conflitantes entre si, e neste sentido, onde há uma multiplicidade dissonante de teorias sobre uma mesma questão, não parece ser nada sensato colocar um ponto final e dar como finalizada a construção do empreendimento filosófico. Entretanto, o fato de Sexto Empírico não oferecer um sistema filosófico não quer dizer que o seu pensamento seja incoerente ou pouco rigoroso. Muito pelo contrário! É possível notar na exposição do Sexto Empírico como o seu pensamento é articulado e meticuloso. Pirro era daquele tipo de filósofo que estava mais preocupado com o caráter prático de suas ideias, ou seja, ele privilegiou o aspecto mundano e pragmático desses ensinamentos. E foi isso que Sexto tentou resgatar.

Neste sentido, se não somos capazes de fazer um relato sobre a natureza das coisas, a própria noção de conhecimento filosófico torna-se problemática. Ou seja, não é que os céticos não se preocupavam ou não davam importância para a construção desse tipo de conhecimento. Não vamos confundir as coisas! A possibilidade de construção do conhecimento filosófico é um empreendimento complexo e muito problemático, ou seja, trata-se de um empreendimento cheio de desafios. É necessário ter muito rigor e levar as investigações filosóficas até as últimas consequências. E naquelas circunstâncias, o melhor mesmo a ser feito, para evitar a precipitação e a formulação de teorias que poderiam se tornar problemáticas ulteriormente, e mais problemáticas ainda se recebessem a adesão de maneira irrefletida por parte dos adeptos, era suspender o juízo. Mas, então, a atitude dos céticos tinha a ver com uma espécie de denúncia em face ao dogmatismo? E qual era o teor dessa denúncia? O dogmatismo poderia engendrar efeitos nefastos para o pensamento quando, supostamente, as suas respectivas filosofias considerassem a construção do empreendimento filosófico terminada, colocando assim um ponto final na possibilidade de novas investigações, questionamentos, o livre exercício das dúvidas, assim como o alvorecer de novos debates. Em outras palavras, quando, supostamente, as suas respectivas filosofias considerassem que o ponto derradeiro do itinerário reflexivo havia sido alcançado.

Por outro lado, além da suspensão do juízo, tendo em vista tudo o que a filosofia poderia pensar, debater e refletir ulteriormente, os céticos também consideravam igualmente importante a investigação. E isso a tal ponto que ela deveria acontecer incessantemente. Neste sentido, o pensamento cético caracteriza-se, entre outras coisas, pela manutenção da investigação quando se debruça diante de outros sistemas filosóficos. Assim, temos dois elementos importantes: de um lado, a suspensão do juízo que viabiliza o alvorecer da livre atividade de pensamento, sempre em movimento, livre de dogmas; e de outro, a investigação que nutre o pensamento com novos elementos filosóficos passíveis de apreciação crítica. Eis um panorama bastante simplificado que podemos encontrar na primeira parte das Hipotiposes. Gostaria de explorar um pouco mais esses dois aspectos.

Quando estava caminhando pela calçada naquela manhã de sábado, no percurso para a aula de espanhol, ouvi o canto de um passarinho. Não sou muito bom para identificar o canto dos pássaros e também faço confusão para saber quem é quem. São muitas as espécies e cada uma delas se expressa a seu modo, além de ter as suas próprias características. É fácil cometer um engano, por mais que os nossos sentidos sejam capazes de perceber os sons. É claro que certos cantos são inconfundíveis, como o do “bem-te-vi”, por exemplo. Entretanto, ainda que estejamos na cidade, no meio urbano, com poucas árvores e o predomínio de casas, prédios, concreto e asfalto, a manifestação dessas formas de vida convive conosco, ainda que de maneira restrita – infelizmente. Olhei para a árvore e logo percebi quando o passarinho voou em direção ao fio do poste de energia. Logo em seguida, ele alçaria voo para outro local, indo embora – seguindo o seu caminho. Por outro lado, para as pessoas com deficiências auditivas, as coisas podem ser diferentes. Quando presenciei a cena, o primeiro tropo de Enesidemo, ou seja, o tropo dos animais, veio ao pensamento.

Como disse anteriormente, os céticos suspendem o juízo em relação às formulações teóricas que tenham como pretensão revelar a natureza das coisas. Para fazer isso, eles recorrem a uma série de tropos, ou modos de suspensão, para lograrem êxito em suas estratégias. Esses tropos são empregados durante a argumentação para produzir a suspensão do juízo. E mais. O que está em jogo aqui seria justamente uma denúncia em relação aos efeitos nefastos que o dogmatismo poderia produzir para a atividade do pensamento. Na primeira parte das Hipotiposes, Sexto Empírico expõe os 10 tropos de Enesidemo – dos céticos mais antigos – e os 5 tropos de Agripa, além dos outros 2 tropos – dos céticos mais recentes –, com o propósito de indicar como a pretensão dogmática em relação à construção do conhecimento filosófico é algo muito mais problemático do que se possa imaginar. Trata-se de uma longa exposição onde Sexto Empírico explicita por que temos boas razões para colocar sob suspeita as alegações dogmáticas. Por outro lado, Sexto Empírico é muito prudente com a sua exposição, uma vez que ele considera o assunto em aberto, não estando completamente exaurido, havendo ainda a possibilidade de existência de outros tropos diferentes – que poderiam ser ainda mais suspensivos.

Quando aquele passarinho voou, fiquei imaginando como poderia ser a vida de um passarinho na cidade. Fiquei pensando: se a vida na natureza já é tão difícil – e aqui me recordo de uma passagem do Mundo como vontade e como representação, quando Schopenhauer entende que há uma luta constante e incessante na natureza pela vida –, imagine como ela pode ser ainda mais difícil na cidade, onde há uma escassez de recursos, alimentos, árvores, água para beber, em suma, um ambiente artificialmente organizado para acomodar, em grande medida, a vida dos seres humanos! A civilização criada para os humanos parece não ter levado em conta que o nosso planeta não foi feito única e exclusivamente para a nossa espécie! Ou seja, nós, como mais uma entre todas as outras espécies, habitamos este planeta, assim como outros seres vivos e modos de vida – com as suas diferentes características e constituições específicas.

Assim, parece-me que os seres humanos não têm nenhum privilégio em detrimento das outras espécies. Tenho a impressão de que não somos mais inteligentes ou mais naturalmente bem-dotados em relação às outras espécies ou modos de vida. Aliás, o que é inteligência? O que muitos animais podem fazer, nós não podemos fazer sem recorrer a algum meio tecnológico. Um passarinho pode voar. Um cachorro pode ouvir certas faixas de frequência sonora que os humanos não podem escutar, sem contar o faro muito mais apurado. Os gatos podem subir em muros, em árvores e até mesmo em telhados, entre outras coisas inimagináveis. Uma formiga pode carregar até N vezes o número de seu próprio peso. Em muitas circunstâncias, os instintos são muito mais precisos, rápidos e confiáveis do que a própria razão! Tenho a impressão de que temos certas características e que somos diferentes sob certos aspectos em relação às outras espécies e modos de vida. Mas isso não deveria ser uma razão plausível para alegarmos que temos mais direitos em relação às outras espécies e modos de vida. Como será que um passarinho se sente morando na cidade? A resposta para a pergunta parece óbvia, ou a própria pergunta parece meio tola, mas em algum momento será que estamos pensando sobre essas coisas quando estamos andando apressadamente pelas ruas da cidade? Aliás, será que chegamos mesmo a perceber o que há na cidade, além do asfalto e do concreto? O planeta não foi feito para nós, seres humanos, nós apenas o habitamos, assim como as outras espécies de seres vivos e modos de vida.

Perceba como as leituras de um texto filosófico podem ter uma grande influência em relação à nossa visão de mundo, e neste caso, em nossa relação com os outros animais. Se fôssemos seres unicamente egoístas, tenho a impressão de que as outras espécies, ou até mesmo a natureza como um todo, deveria existir para servir única e exclusivamente aos nossos próprios interesses. Entretanto, se investigarmos um pouco mais a questão, poderemos colocar um outro elemento nesta balança para que essa inclinação seja direcionada para o equilíbrio. Em muitas de nossas relações cotidianas, ou até mesmo em nossas relações com os outros animais, agimos tendo em vista o bem-estar alheio. Por exemplo, quando estamos com um carrinho de compras na fila do supermercado e uma pessoa chega, com alguns poucos itens, e pergunta se não seria possível ceder o nosso lugar para que ela possa passar na frente. Obviamente, não seremos egoístas. Ou ainda, quando um gatinho de rua pula o muro de nossa casa e passa a conviver conosco em nosso quintal. Obviamente, acolheremos aquele animalzinho, alimentá-lo-emos, daremos água e carinho. Nesses dois exemplos, demonstramos como o altruísmo é capaz de promover ações desinteressadas. No primeiro caso, ele foi capaz de produzir um ato de gentileza. No segundo caso, ele foi capaz de produzir um ato de acolhida.

Ainda na primeira parte das Hipotiposes, Sexto Empírico fala sobre investigação, uma das características do ceticismo. Em outras publicações de nosso blog, já tive a oportunidade de falar sobre esse conceito, e naquela ocasião, desenvolvi uma reflexão aplicada ao âmbito da tradução. Entretanto, o conceito de investigação tem um sentido amplo e sua interpretação pode ser multifacetada. No texto de Sexto Empírico, a investigação está direcionada para a apreensão das outras filosofias como objeto de reflexão. E neste caso, tenho a impressão de que a investigação anda de mãos dadas com a curiosidade. Para que seja possível haver a investigação, é necessário haver uma curiosidade quase que insaciável em relação a tudo. Assim, investigar, ou seja, seguir os traços, assemelha-se a uma nutrição. Alimentamos o pensamento com os elementos filosóficos das outras escolas, ou seja, lançamos um olhar apreensivo no sentido de termos à nossa disposição as outras filosofias como objeto de reflexão: levantar problemas, analisar a exposição de uma ideia, comparar o pensamento filosófico de seus respectivos autores, perceber a linha de desenvolvimento de uma doutrina e certas afinidades entre certas escolas de pensamento, formular objeções, etc. Tudo isso é fonte de muito prazer, uma vez que nossas habilidades intelectuais são colocadas em movimento. Enfim, muitas são as perguntas filosoficamente formuladas durante o estudo de uma filosofia. E sempre mantemos em nosso horizonte a suspensão do juízo.

Observe que, quando ouvi o canto daquele passarinho, na mesma hora, nasceu a curiosidade em relação a tudo que dizia respeito àquele animalzinho. A partir da percepção daquele canto, perguntei: “Como é o nome desse passarinho?”; “Será que ele é muito grande?”; “Quais são as suas cores?”; “Onde ele está?”. Perceba como a leitura de um texto filosófico pode influenciar a maneira pela qual somos capazes de colocar um ponto de interrogação diante das coisas que se nos apresentam. Aqui, estou me referindo a apenas um fenômeno específico. Como os céticos se propõem a mergulhar em uma investigação constante e ininterrupta, poderia dizer que, tendo em vista a grande variedade de fenômenos que se apresenta ao alcance dos sentidos, a filosofia, as próprias pessoas, os outros seres vivos e modos de vida, ou seja, o mundo como um todo,  tornam-se um imenso ponto de interrogação. A sensação de estranheza, diante das coisas, ou ainda, diante do frescor da novidade, é uma experiência constante. Eis o ponto de partida para a possibilidade de novas descobertas. E sempre estaremos munidos com todo o nosso aparato crítico para problematizar toda essa abordagem.

Assim, tudo o que foi dito neste texto não tem nenhuma pretensão de revelar a natureza dessas ideias. Apenas fiz um relato sobre a minha experiência pessoal, singular, particular e circunstancialmente determinada, depois que o contato com o texto de Sexto Empírico tornou-se um hábito em minha vida. Também fiz um relato sobre como essas ideias podem ter uma influência muito marcante em minha visão de mundo e, consequentemente, em minha relação com os outros animais, outros seres vivos e modos de vida. No entanto, todo esse relato é um relato feito por uma pessoa com uma certa idade, no ano de 2024, em plena primavera – estamos no hemisfério sul – e em circunstâncias muito específicas. Além disso, não tenho nenhuma pretensão de convencer as outras pessoas com o meu próprio ponto de vista, uma vez que cada pessoa tem o seu próprio ponto de vista e suas próprias apreciações em relação aos mais diversos aspectos sobre as coisas mais variadas. Tentar convencer o interlocutor também pode ser uma maneira dogmática de impor um ponto de vista. E essa postura parece não ter nenhuma afinidade com os propósitos da “escola” cética.

Por outro lado, talvez não seja sensato desconsiderar muitos dos aspectos filosóficos aqui esboçados. Por um lado, nas Hipotiposes Pirrônicas, Sexto Empírico apresenta aos seus leitores e leitoras um trabalho muito minucioso em relação ao tratamento do pensamento cético pirrônico em relação ao dogmatismo. Alguns comentadores especializados dizem que, entre os textos da antiguidade, aqueles de Sexto Empírico figuravam entre os textos contendo mais argumentos por página do que qualquer outro texto. Se compararmos os textos de Sexto Empírico com os de Platão, por exemplo, poderemos notar uma grande diferença, sob os mais variados aspectos: em Platão temos uma exposição dialógica de sua doutrina; em Sexto Empírico temos uma exposição muito mais argumentativa ao longo do tratamento das questões dogmáticas. Ou seja, o ceticismo pirrônico tal como foi legado para a história da filosofia por Sexto Empírico pode ser considerado como um dos trabalhos que teve o cuidado de articular uma infinidade de argumentos para: 1) promover a suspensão do juízo; e 2) denunciar os efeitos nefastos do dogmatismo. Por outro lado, Sexto Empírico sempre teve o cuidado de deixar bastante claro ao leitor ou leitora que o pirronismo apresenta certas diferenças em relação às outras escolas de filosofia. Por exemplo, havia quem perguntasse se o ceticismo poderia ser considerado uma escola. E Sexto Empírico dizia que uma resposta dependeria do entendimento da pessoa em relação ao termo “escola”: no sentido dogmático, não poderia ser considerado uma escola; entretanto, no sentido cético, faria sentido falar em “escola”.

Porém, independentemente de qualquer coisa, tenho a impressão de que o melhor a se fazer, diante de todas essas questões – muito fecundas, filosoficamente ricas e instigantes –, é suspender o juízo, pois talvez ainda me reste um longo caminho para amadurecer as minhas próprias ideias. Neste momento, um ponto de vista ou mesmo a interpretação do texto filosófico de Sexto Empírico pode parecer plausível e adequada. Entretanto, em outras circunstâncias, e já em idade mais madura, talvez uma nova consideração possa ganhar mais importância em minhas reflexões e outros elementos poderão ganhar novos contornos. Ainda há muito o que ser descoberto e debatido no âmbito da filosofia. A construção do empreendimento filosófico é algo de tal envergadura que, no estado atual de coisas, às vezes penso que somos apenas bebês curiosos que começaram a tatear as coisas. De um lado, temos a produção filosófica, com a articulação de suas teorias, e de outro, o ceticismo, com a articulação de seu aparato crítico. Ambos em rica e pacífica tensão de convivência.



Referências bibliográficas:

SEXTUS EMPIRICUS. Outlines of Scepticism. Edited by Julia Annas and Jonathan Barnes. Cambridge texts in the history of philosophy. New York: Cambridge University Press, 2000.

 

 

Sobre a pintura:

Henriette Ronner-Knip (1821-1909) 

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Óleo sobre painel 

Coleção privada 

Foto em domínio público


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Friday, April 26, 2024

Uma história de um livreto com as suas páginas já amareladas

 






Qual é o sentido daquelas preferências gerais pela vida na cidade ou pela vida no campo, por uma vida de ação ou por uma vida de prazer,  pela vida reclusa ou pela vida em sociedade; quando, além das inclinações diferentes de homens diferentes, a experiência de todos pode nos convencer de que cada uma dessas formas de viver pode ser, a seu modo, agradável e quando a variedade mesma ou a sua combinação judiciosa estão entre os fatores que mais contribuem para tornar todas elas agradáveis?

O cético, David Hume

 

 

Estava folheando há pouco um livreto com as “suas páginas já amareladas” quando algumas memórias se tornaram vivazes. Passo a compartilhá-las com vocês.

Aquele era mais um estudante universitário que acabara de entrar na faculdade de filosofia, quase no final da primeira década dos anos 2000, em uma universidade paulistana. Com um repertório filosófico muito precário, o único livro de filosofia que havia sido lido, pouco antes de começar a graduação, era A República de Platão. Encontrado em uma livraria do ABC paulista, o livro tinha capa branca, título em vermelho vinho e uma figura em cinza esmaecido que representava a fachada do Partenon. Um comentário suscinto no rodapé da página estimulou a curiosidade: uma obra fundamental na trajetória do pensamento filosófico. Então, ainda naquela livraria, o livro foi pego nas mãos, algumas de suas páginas foram folheadas e foi decidido que ele deveria ser comprado. Na sequência, houve empolgação, o livro foi levado para casa e não se via a hora de que aquela leitura começasse. Alguns dias depois, a leitura foi completamente concluída. E foi por ali que a jornada começou, e esse livro está guardado até hoje.

Foi por ali que a jornada começou, mas não seria por ali que os meus passos iriam avançar. Sim, foi essa a conclusão a que cheguei, já na graduação, após a leitura dos primeiros textos filosóficos e depois de algumas aulas assistidas. Um de meus professores que ministrava boa parte das aulas em Platão e filosofia antiga, o Prof. Paulo Henrique, era uma pessoa incrível e extremamente generosa. As suas aulas foram muito importantes para que fosse possível construir uma noção e compreender um pouco melhor alguns aspectos do platonismo. Entretanto, desde o primeiro ano da graduação, adotei uma postura muito prudente em relação à recepção das ideias de filósofos e filósofas com os quais o então estudante, no caso eu, teria contato. Segundo a minha avaliação, seria necessário haver mais tempo de estudo e aprofundamento nas doutrinas ao longo da história da filosofia para que uma posição filosófica pudesse ser firmada. Portanto, conclui que não seria platônico.

Com o avanço das aulas, muito debate e troca de ideias entre colegas, acabaria descobrindo que o meu repertório filosófico, até então precário, seria uma virtude. Mas, como assim? Não cheguei na universidade munido de leituras, e neste sentido, pude construir pouco a pouco as minhas próprias noções conforme absorvia as aulas de professores e professoras muito mais experientes que dedicaram – e ainda dedicam – muitos anos de suas vidas ao estudo do pensamento. Ou seja, não entrei na universidade com uma noção pré-concebida do que seria a filosofia – aliás, descobriríamos ao longo das aulas que a pergunta “o que é filosofia?” é considerada por alguns pensadores como uma das perguntas filosoficamente mais desconcertantes. Muitas vezes, a interpretação de um texto filosófico pode estar equivocada. Além disso, ela pode ser fruto de concepções tradicionais mal fundamentadas. Não cheguei na universidade munido dessas leituras, mas sempre tive uma disponibilidade intelectual que considero ser muito benéfica para o exercício do pensamento. Sempre gostei de conversar sobre os mais variados assuntos. E sempre nutri muita curiosidade diante do desconhecido. Assim, começar a trilhar os caminhos filosóficos por meio da orientação de professores especialistas acabou sendo formidável.

Desde a adolescência sempre tive o pensamento muito inquieto. Já na universidade, descobrir o que os outros filósofos e filósofas pensavam sobre os mais variados assuntos era uma maneira de compreender aos poucos a humanidade que também habitava em mim. Assim, descobria que as minhas inquietações eram fruto de reflexão, e neste sentido, faziam parte do curso de meu amadurecimento. Em determinado momento, na graduação, tive a impressão de que um avanço significativo poderia ser feito no momento em que estabeleci contato com os textos do Prof. Porchat em seu Rumo ao Ceticismo, por meio das aulas do Prof. Piva, que seria o meu orientador na graduação, uma figura de generosidade ímpar. Então, resolvi mudar o curso de minhas investigações e direcionar a minha reflexão para entender melhor a proposta da “escola” cética. Dois aspectos despertaram o meu interesse para compreendê-la melhor: o primeiro aspecto consistia na prudência em relação ao estudo das diversas doutrinas filosóficas, ou seja, desde que a tradição ocidental foi estabelecida com Tales, as mais variadas linhas de pensamento e escolas filosóficas foram desenvolvidas ao longo do curso da história da filosofia. Neste sentido, juntamente com todas essas escolas, veio à tona o que o Prof. Porchat entendeu ser “o conflito das filosofias”; o segundo aspecto consistia em uma proposta muito interessante do ceticismo. O cético, diante das doutrinas dogmáticas formuladas pelas mais variadas escolas filosóficas, sempre em constante conflito umas com as outras, e com igual força persuasiva, suspende o juízo, e então, chega à tranquilidade. Todos estes ensinamentos, até então inéditos em minha vida, foram fruto dos estudos dedicados ao longo das aulas na graduação e da participação no grupo de estudos sobre o ceticismo, este sob orientação do Prof. Piva. Entretanto, entender filosoficamente que o ceticismo não é uma doutrina, mas sim uma habilidade, leva tempo – e comigo, não seria diferente. Mas a sua característica mais marcante consiste em seu traço persuasivo. Sem contar o seu caráter aporético e zetético.

Como disse em algumas outras publicações, descobrir o altruísmo filosófico do médico e filósofo Sexto Empírico, depois de ler as Hipotiposes Pirrônicas, foi um dos eventos mais marcantes em minha jornada universitária. Os textos de Sexto Empírico foram legados à história da filosofia como um dos principais trabalhos sobre o ceticismo na antiguidade. Existem diferentes manifestações de pensamento cético, e o trabalho de Sexto Empírico é fruto da compreensão do Ceticismo Pirrônico, cujo fundador é Pirro de Élis (365 – 275 a.C.). Posteriormente, saber que na Academia de Platão houve a manifestação do Ceticismo Acadêmico foi um elemento importantíssimo que indicava que o meu caminho estava direcionado para o norte.

Em um sábado à tarde, se ainda me lembro bem, o dia estava meio cinzento, resolvi procurar alguns livros em um sebo do ABC paulista. Precisava fazer alguns trabalhos da universidade, então, ali poderia ser um ótimo local para encontrá-los. Havia a biblioteca da universidade, onde os livros poderiam ser encontrados, sem dúvida, mas queria comprá-los para tê-los em mãos sempre que possível. O Prof. Piva já havia tecido alguns comentários sobre um livreto chamado O que é Ceticismo, de Plínio Smith. Quando cheguei no sebo, comecei a percorrer as prateleiras. Havia muitos livros. Aquilo era ótimo! Quando fui até a parte de filosofia, não encontrei os livros que estava procurando, mas acabei encontrando um pequeno livreto com as “suas páginas já amareladas”. Imagino que o leitor e leitora já devem saber sobre o que estamos falando. Sim! O que é Ceticismo. Peguei o livreto na mesma hora e começaria a lê-lo quando chegasse em casa.

Depois de percorrer algumas páginas, chego no capítulo “O ceticismo mitigado de David Hume”. Tivemos a oportunidade de estudar o pensamento de Hume no terceiro ano da graduação. Naquele momento, quando estávamos lendo o Tratado da Natureza Humana, já absorvia as aulas estando norteado pela interpretação do ceticismo mitigado de Plínio Smith em seu O que é Ceticismo – Hume tinha 27 anos quando terminou o Tratado, o seu primeiro livro, composto em três volumes: o livro 1 (Do entendimento) e o livro 2 (Das paixões) foram publicados em 1739; já o livro 3 (Da moral), juntamente com o “Apêndice”, foram publicados em 1740. Tenho que fazer um comentário, naquelas circunstâncias, tivemos pouquíssimo tempo para nos aprofundarmos na filosofia de Hume, e naquele momento, pelo menos para mim, o seu pensamento se apresentou como um dos mais desconcertantes e filosoficamente ricos. A origem das ideias, o fundamento das inferências causais e o fundamento da moral, todos esses elementos filosóficos eram extremamente fecundos e originais! Tudo isso precisava ser compreendido em detalhes. Queria aprofundar os estudos na filosofia de Hume, pois, naquele momento, tivemos um panorama introdutório. Todas aquelas dúvidas, questionamentos e inquietações começaram a fermentar e precisavam de outras respostas. Fiquei muito curioso para descobrir outros aspectos do pensamento de Hume.

Estava decidido que deveria aprofundar as minhas investigações em um mestrado e também continuar aprofundando os meus estudos sobre a “escola” cética e desenvolver um trabalho de pesquisa sobre o ceticismo mitigado de Hume. Pois bem, passei pelo processo seletivo e entrei para o programa de pós-graduação em filosofia em uma universidade de Guarulhos. Mas não só isso. Estava decidido a construir uma carreira acadêmica. Sou muito grato ao Prof. Plínio pelo período em que me orientou e, sobretudo, pela oportunidade de ter conhecido a sua interpretação sobre o ceticismo mitigado de David Hume em seu livreto – de poucas páginas, mas com um conteúdo extremamente fecundo. O seu livro, O Ceticismo de Hume, merece ser lido muitas vezes – a cada leitura, uma nova descoberta. Infelizmente, passei por um período muito difícil ao longo do mestrado e precisei interromper a pós para cuidar de minha saúde que estava muito enferma na época. Toda aquela situação comprometeu o andamento da pesquisa, assim como o andamento dos trabalhos. A minha capacidade de pensar, pesquisar e escrever estava bastante debilitada naquelas circunstâncias. Hoje estou plenamente recuperado, saudável e a minha capacidade de escrita voltou.

Aquela pesquisa não foi concluída e não pude dar andamento a minha carreira acadêmica. Entretanto, guardo na memória com muita alegria muitos dos bons momentos vividos, como as pausas para o café na cantina, as aulas na pós e os dias de estágio na graduação, momento em que tive a oportunidade de dar aulas. Foi incrível. Também guardo com muito carinho, aqui na gaveta de minha escrivaninha, os dois pincéis usados quando ministrei as aulas. Por outro lado, graças ao trabalho que foi desenvolvido na graduação, à publicação de nossa tradução do artigo de Richard Popkin na revista Sképsis e ao mestrado, ainda que parcialmente concluído, hoje, além de ser filósofo, também sou tradutor. E também sou tradutor graças aos estudos dos idiomas que passei a cultivar ao longo da vida, entre eles o francês, cujo interesse pelo estudo foi fruto da influência direta do trabalho de orientação iniciado na graduação e desenvolvido no mestrado. Estou consolidando a cada dia a minha carreira. Também é incrível ter a oportunidade de trabalhar com as pessoas de muitos lugares ao redor do mundo. O pensamento filosófico de Hume está vivo em mim, e hoje, o meu repertório filosófico é um pouco mais variado, mas ainda assim, se levarmos em conta toda a tradição ocidental, ele ainda é extremamente restrito, por isso, tenho a intenção de continuar estudando, além do próprio pensamento de Hume e do pensamento cético, outros pensadores e pensadoras. Tenho interesse, também, pelos estudos em filosofia francesa, sobretudo o pensamento no Siècle des Lumières. Ter mais alguns anos de leitura pela frente, quem sabe, é um pouco reconfortante.

Sou grato pela oportunidade daquele livreto com as “suas páginas já amareladas” ter cruzado o meu caminho em um sebo.

 

 

Sobre a pintura:

Vincent van Gogh (1853 – 1890)

Campo com lírios perto de Arles

Arles, maio de 1888

óleo sobre tela

Van Gogh Museum, Amsterdam (Vincent van Gogh Foundation)


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Monday, August 28, 2023

Sobre o cultivo de diferentes línguas e outras considerações

 






Há quem diga que toda a diversidade de línguas presente no mundo seria um verdadeiro problema. Para eles, essa diversidade representaria uma dificuldade para a comunicação entre os seres humanos. A partir do momento em que existem diferentes línguas, as pessoas não seriam capazes de se comunicar e chegar ao entendimento. Porém, outros tenderiam a enxergar essa questão sob o ponto de vista oposto. Segundo esse ponto de vista, diferentemente de ser um verdadeiro problema, essa diversidade representaria uma das mais ricas características humanísticas. Ou seja, a partir do momento em que existiriam diferentes línguas haveria a possibilidade de existência de novos modos de comunicação, fala, escrita e expressão de ideias. E quando falo em expressão de ideias, tenho em vista que as diferentes línguas poderiam expressar o pensamento de modos variados. Percebemos a sua determinação no mundo por meio das diferentes manifestações artísticas, como a pintura, literatura, arquitetura e música, por exemplo. Aqui, consideramos o pensamento artístico. Mas o que seria o pensamento? Acompanhem comigo algumas ideias que me ocorrem neste momento e que serão esboçadas ao longo deste breve ensaio.

A língua materna faz parte da vida das pessoas desde o momento em que elas começam a receber as primeiras influências de certa comunidade linguística. Há pessoas que crescem em um ambiente monolíngue, ou seja, o aprendizado das primeiras palavras e a comunicação acontecem por meio de uma língua apenas. Entretanto, há pessoas que crescem em um ambiente multilíngue, ou seja, o aprendizado das primeiras palavras e a comunicação acontecem por meio de duas ou mais línguas. No primeiro caso, as pessoas herdam o legado linguístico de uma comunidade de falantes. No segundo caso, as pessoas herdam o legado linguístico de pelo menos duas comunidades de falantes.

Para uma pessoa que cresce em um ambiente monolíngue isso não significa que ela falará uma única língua ao longo de toda a vida. Existe a possibilidade de que essa pessoa, ao longo de sua formação educacional, descubra novas referências e tenha o interesse despertado em estabelecer contato e aprender a língua de outras comunidades linguísticas. Perceba que se essa pessoa considerasse correto o preceito segundo o qual a diversidade de línguas presente no mundo representasse um verdadeiro problema, ela desconsideraria que a diversidade de línguas presente no mundo representa uma das mais ricas características humanísticas. Ou seja, ela deixaria o aprendizado de uma nova língua de lado, pois para ela, o entendimento entre os seres humanos representa um problema insolúvel, uma vez que os desentendimentos sempre aconteceram e as coisas sempre foram assim. Então, a possibilidade de aprender uma nova língua não faria sentido algum.

Por outro lado, a partir do momento em que se descobre como essa diversidade de línguas representa uma das mais ricas características humanísticas, surge a possibilidade de aprender uma nova língua e, consequentemente, a possibilidade de fazer parte de uma nova comunidade de falantes. Wittgenstein dizia que os limites de sua  linguagem significavam os limites de seu mundo. Ou seja, quando alguém decide aprender uma segunda língua, um novo modo de comunicação, fala, escrita e expressão de pensamento poderá nascer. Neste sentido, a vontade de aprender uma nova língua é nutrida pela curiosidade da descoberta de um novo mundo, e, quando a vontade de aprender uma nova língua é uma chama acesa, esse mundo não tem fronteiras. Dito de outro modo, a vontade de aprender uma nova  língua surge a partir do momento em que há uma curiosidade em compreender o que as outras pessoas pensam e têm a dizer. Estabelecer contato com o patrimônio cultural de outros povos de um modo tão íntimo, isto é, a partir do conhecimento da língua daquela comunidade de falantes, pode ser uma das experiências existenciais mais enriquecedoras. Ler livros, ouvir música, assistir a filmes, acompanhar as transmissões de conteúdo ou aprimorar a arte da conversação, entre outras coisas, tudo isso poderá ser feito quando passamos a cultivar novas línguas. Se os modernos fizeram a exploração do Novo Mundo pelas vias marítimas, não seria uma má ideia explorarmos não só o Velho Mundo pelas vias linguísticas, mas também o mundo inteiro.

Quando aprendemos a cultivar a prática e a aprendizagem de novas línguas, passamos a valorizar aquela riqueza de características humanísticas em termos linguísticos. A comunicação acontece na vida cotidiana, e muitas vezes, quando não somos capazes de fazer o bom uso das palavras, o entendimento torna-se mais difícil. Isso acontece com os próprios falantes no interior de uma comunidade linguística e entre os falantes pertencentes a diferentes comunidades linguísticas. Contudo, tenho a impressão de que essa complexidade presente durante a comunicação representa mais um traço de funcionamento das línguas e não um verdadeiro problema. Há quem goste de usar um vocabulário mais rebuscado e complicar a comunicação, por exemplo. No entanto, quando estamos dispostos a nos comunicar e expressar os nossos pensamentos de modo simples, claro e acessível podemos construir o entendimento.

Existem muitas línguas, e por mais que uma pessoa queira aprender a falar novas línguas, creio que seria praticamente impossível aprender todas elas ao longo de uma vida. Neste sentido, a fim de promover a compreensão, o entendimento e o estreitamento de laços culturais e comerciais entre os povos, surge a figura do tradutor. Esse profissional dedicou muitos anos de sua vida ao aprendizado de línguas com as quais trabalha, e depois de todo o aprendizado, o cultivo dessas línguas passou a acontecer naturalmente.

Já comentamos em certas publicações anteriores que uma mesma palavra pode ser usada em contextos diversos, e quando o uso transita entre os contextos, as sentenças teriam significados diferentes. Por exemplo, a palavra “tolerância” pode ser usada em contextos variados, e dependendo do uso, o seu significado pode mudar. Assim, a partir do momento em que um dos componentes constitutivos das línguas é a palavra – refiro-me às línguas para as quais a ideia de palavra faz algum sentido, entretanto, há outras línguas em outras regiões e lugares cuja ideia de palavra talvez não faça sentido algum –, e a comunicação, fala, escrita e expressão de pensamento acontecem por meio das palavras, também, o reconhecimento de diferentes línguas presentes no mundo implica no reconhecimento de diferentes comunidades linguísticas.

O tradutor, por sua vez, tendo em vista o cultivo das diferentes línguas com as quais trabalha, pode colocar em prática duas habilidades linguísticas muito interessantes para promover a compreensão e o entendimento: a cordialidade e a versatilidade linguísticas. No meu caso, trabalho com os pares linguísticos inglês>português e francês>português. Assim, além da comunidade lusófona, considero-me um membro das comunidades anglófona e francófona. Ou seja, considero-me em estreita relação com os falantes dessas comunidades a partir do momento em que em certas circunstâncias de minha vida tive o interesse em aprender, estudar e cultivar as línguas inglesa e francesa. Por outro lado, retomei os estudos de espanhol faz pouco tempo e tenho a intenção de oferecer os meus serviços linguísticos no par de idioma espanhol>português em breve, ou seja, estou voltando a fazer parte da comunidade linguística hispânica. É muito gratificante a ideia de poder estabelecer comunicação com os nossos queridos vizinhos latino-americanos. E também com os espanhóis. A minha trajetória linguística acontece assim. A minha língua materna é o português; em seguida aprendi inglês; o espanhol foi a terceira língua, cujos estudos foram interrompidos depois de um ano; depois o francês foi a quarta língua; após ter concluído os estudos de francês, retomei os estudos de espanhol.

Assim, se considerarmos que uma pessoa não será capaz de aprender todas as línguas existentes ao longo da vida, e se considerarmos que as próprias pessoas têm certas afinidades com o aprendizado de certas línguas, e se considerarmos ainda que existem outras pessoas que não têm o menor interesse em aprender outras línguas, o tradutor poderia representar uma figura muito interessante para promover o entendimento e a compressão, portanto, o seu trabalho tende a aproximar as pessoas. Para o tradutor, a diversidade de línguas presente no mundo representa uma riqueza humanística considerável. E o fato de haver muitas pessoas que se comunicam apenas na língua materna pode ser um estímulo adicional para o trabalho do tradutor. Essas pessoas poderiam ser incluídas na comunicação que acontece na vida cotidiana. Por exemplo, um paciente que está procurando certas informações para um tratamento médico poderia ter acesso às novidades que estão acontecendo em outros países por meio das divulgações científicas que estão sendo feitas em sua língua materna. O trabalho de tradução gera inclusão linguística.

Por outro lado, a complexidade presente na comunicação é perceptível durante a tradução de um texto. Neste sentido, tenho a impressão de que o significado das palavras, e não a diversidade de línguas presente no mundo, representa um problema para a comunicação. Se houvesse um significado unívoco não haveria a necessidade de existência de toda a diversidade linguística presente no mundo, e todas as pessoas seriam capazes de chegar ao entendimento, concorda? Assim, a diversidade terminológica presente no texto suscita por parte do leitor e leitora, entre outras coisas, a investigação contínua pelo sentido para que o texto possa se tornar inteligível, uma vez que o sentido das sentenças é construído a partir do uso das palavras. Durante a tradução, uma das motivações do tradutor é construir um texto que faça jus à inteligibilidade do texto original. E quando falo em inteligibilidade estou considerando o termo em sentido amplo, ou seja, a construção de sentido nas sentenças, a construção de coerência entre os textos original e traduzido, o tom da mensagem, o estilo, a fluidez, a consistência terminológica, entre outras características. Além disso, um elemento importante que ajuda a nortear o trabalho do tradutor é ter em mente o público leitor. Aliás, é para o público leitor que o texto traduzido será direcionado, e quanto mais acessível, tanto melhor para o leitor e leitora.

Não poderia deixar de ilustrar como exemplo a tradução de textos para a área médica. Traduzir um texto da área médica é um trabalho de muita responsabilidade, mas não deixa de ser duplamente gratificante. O uso, a tradução e o emprego terminológico devem ser precisos e claros. Em primeiro lugar, trabalhar com um texto com conteúdo científico me faz lembrar da época da faculdade, momento em que tive a oportunidade de estudar os textos do médico e filósofo Sexto Empírico. Descobrir o seu notável altruísmo filosófico foi um dos acontecimentos mais marcantes em minha jornada universitária. Sempre tenho em mente os seus ensinamentos e o seu altruísmo filosófico parece gerar um efeito notável em seus pacientes. Em segundo lugar, saber que a tradução de um texto médico será direcionada para o leitor e leitora representa inclusão em termos de bem-estar e saúde.

Entretanto, cultivar as línguas de outras comunidades não implica deixar de lado a língua materna. Pelo contrário! Ainda que o mundo possa não ter fronteiras, em termos linguísticos, para quem é interessado pela aprendizagem de línguas, a língua materna é tão ou mais cultivada quanto as demais línguas, uma vez que o tradutor vive em sua comunidade de convívio linguístico mais estreito. Tenho a intenção de construir a minha biblioteca ao longo de minha vida. Estou fazendo isso aos poucos. E na maior parte do tempo livre gosto de colocar as leituras em dia. Pretendo reservar um tempo de minha vida para ler mais detalhadamente os clássicos da literatura brasileira. Quando era adolescente, no ensino médio, adorava as aulas de literatura, e tinha uma predileção pelos estudos da língua portuguesa e inglês. Nunca fui um aluno brilhante, mas gostava muito das aulas. No entanto, tenho a impressão de que, depois de ter passado pela formação universitária, essas leituras poderiam ser interpretadas sob uma nova ótica, com uma bagagem filosófica viva. Por exemplo, gostaria de ler mais atentamente Machado de Assis, Olavo Bilac, Lima Barreto, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Clarice Lispector, entre outros e outras. As minhas leituras acompanharão os meus passos e seguirão o meu amadurecimento como ser humano. Tive um professor na Universidade, apreciador da obra de Diderot, que dizia que uma vida é insuficiente para lermos todos os clássicos. Complementando a sua observação, diria também que, para lermos certos clássicos em língua estrangeira, precisamos dedicar um tempo precioso de nossas vidas ao estudo das línguas com as quais temos afinidade. Além disso, o resultado concreto do trabalho de tradução é feito e entregue para o leitor e leitora na língua materna.

Não poderia deixar de me recordar da provocação de Schopenhauer, segundo a qual, para ele, a tradução seria “uma obra morta”. Especificamente quanto às traduções dos escritores da antiguidade, a sua provocação dizia ainda que “elas são um sucedâneo de suas obras assim como o café de chicória é um sucedâneo do verdadeiro café”. Mais uma vez, gostaria de expressar a minha discordância. E caro leitor e leitora, saiba que, quando estamos dispostos a filosofar, a expressão da discordância é um desdobramento salutar para o pensamento. E reconhecer a possibilidade da existência da discordância é igualmente benéfico. Já ofereci alguns argumentos indicando a minha discordância quanto à provocação. Gostaria de oferecer mais algumas considerações. Uma tradução não é uma obra morta pelo seguinte motivo. A partir do momento em que o tradutor trabalha motivado pela ideia de que ele pode promover a compreensão e o entendimento, o resultado de seu trabalho gera a aproximação entre as pessoas, assim como foi dito acima. Além disso, há pessoas que podem ser beneficiadas com o contato de um texto traduzido. Imagine que um jovem ou uma jovem estudante tem a curiosidade de estabelecer contato com literatura estrangeira. Porém, naquelas circunstâncias, eles ainda não tiveram a oportunidade de aprender a língua do texto original. E isso pelos mais variados motivos. Por exemplo, há casos de jovens carentes que não têm condições financeiras para custear os estudos de uma língua estrangeira. Isso é bastante comum – aliás e infelizmente. Assim, ter a possibilidade de levar um texto traduzido para esses leitores poderia ser formidável. A partir do contato com essa leitura, esses jovens poderiam manter o interesse vivo em relação ao estudo da língua estrangeira em um momento mais oportuno. Neste sentido, traduzir, repito, é promover a inclusão linguística. Por outro lado, as obras dos autores da antiguidade foram escritas em línguas que já não são mais faladas contemporaneamente. Assim, o tradutor faz um trabalho muito minucioso para tentar resgatar, entre outras coisas, a inteligibilidade daquela obra, e na medida de suas forças, o resultado de seu trabalho deverá oferecer o texto traduzido respeitando as mais diversas características literárias do texto original. Ou seja, houve certas vivências intelectuais e todo um itinerário foi percorrido pelo tradutor. Obviamente, os textos são diferentes, se considerarmos que eles estão escritos em línguas distintas, entre outros aspectos. No entanto, penso que o trabalho do tradutor tem a sua importância a partir do momento em que ele oferece ao público leitor uma possibilidade de leitura, além de manter o interesse e a curiosidade vivos para que as pessoas possam saber o que aquele autor dizia naquele passado distante.

A essa altura, o leitor e leitora poderiam formular a seguinte objeção. O aprendizado de uma língua é cheio de dificuldades. Além disso,  muitas pessoas não gostam de ler, então, por que elas leriam uma tradução? Em primeiro lugar, além de todos os benefícios que o aprendizado de uma língua poderia proporcionar, a prática da aprendizagem pode ser interpretada como um ato de modéstia. Quando uma pessoa é exposta à aprendizagem de uma língua estrangeira, ela terá a oportunidade de estabelecer contato com outras visões de mundo, opiniões, modos de se comunicar, etc. Além disso, essa pessoa passará a aprender, praticar e descobrir a tolerância a partir do momento em que passa a vivenciar em detalhes diversos aspectos de uma nova cultura, aprender os costumes e os modos de pensar. Eis aqui algumas das riquezas humanísticas que poderiam ser absorvidas em relação à diversidade linguística. Essa pessoa passa a fazer parte de uma nova comunidade de falantes. Em segundo lugar, quanto ao gosto pela leitura, de fato existem muitas pessoas que não gostam de ler na língua materna. E, assim, muitas pessoas nem têm a noção da importância de um texto traduzido. Entretanto, penso que o gosto pela leitura pode ser adquirido ao longo da vida e, então, a sua prática poderia tornar-se um hábito. Já imaginou como o contato com as palavras pode estimular a inventividade, colocar o pensamento em movimento e gerar novas ideias? Assim, quando as pessoas puderem descobrir toda a riqueza que há no aprendizado de línguas e, consequentemente, no gosto pela leitura, elas poderão atribuir valor a um texto traduzido. Eis, então, a descoberta da importância do trabalho de um tradutor.

E quando falamos em tolerância, eis um outro aspecto de toda a riqueza humanística que evocamos acima. Com o cultivo de diferentes línguas passamos a reconhecer as comunidades de falantes e os seus mais variados modos de comunicação. Aqui o leitor e leitora poderiam formular uma outra objeção. A comunicação muitas vezes é ininteligível e existem muitas tensões quando ela acontece entre as pessoas. Em primeiro lugar, reconhecer as mais diversas comunidades de falantes implica no reconhecimento de que diversos fenômenos linguísticos estão presentes no interior dessas comunidades. Novas práticas e abordagens linguísticas podem nascer espontaneamente. Um determinado grupo linguístico no interior dessa comunidade de falantes poderá adotar um vocabulário específico, poderá usar certas expressões e poderá – por que não? – adotar certas práticas discursivas em detrimento de outras. Como foi dito acima, esses fenômenos linguísticos são dinâmicos e acontecem espontaneamente. Em segundo lugar, uma comunidade linguística adota a sua referência normativa que determina a norma culta. Quando esses fenômenos linguísticos acontecem espontaneamente no interior da comunidade de falantes, eles geram novidades, entre outras coisas. Eis que surge a partir de então uma tensão entre a novidade e o uso convencional da norma culta. E tenho a impressão que essa tensão também não representa um problema, mas um traço de funcionamento das línguas. Com o passar do tempo, e com a descoberta e adoção de novas práticas linguísticas, certos usos e modos de se comunicar tornar-se-ão habituais e estarão presentes entre os falantes. Ou seja, por um lado, existem os fenômenos linguísticos que acontecem espontaneamente; por outro, a referência normativa que convenciona a norma culta. E penso que ambos podem coexistir pacificamente. Caberia, então, aos falantes fazerem o bom uso das palavras, ter a disposição de expressar de modo claro o que pensam e ter o bom senso de identificar o contexto no qual a comunicação acontece. Afinal de contas, para haver comunicação, é necessário haver predisposição e boa vontade por parte dos interlocutores.

Para concluir o texto, gostaria de finalizar dizendo que o ato de modéstia que colocamos em prática quando estamos aprendendo, e não só as línguas, mas todos os modos de aprendizado que estamos dispostos a absorver para que possamos estar no mundo mais inteligentemente, parece ser um ato muito benéfico para o aperfeiçoamento do gênero humano. Já pensou como poderia ser interessante abrir um livro de filosofia, por exemplo? Assim, a imagem do professor e da professora vem à mente. Tive a oportunidade de conhecer pessoas muito generosas ao longo de minha jornada de aprendizado – constante e ininterrupto – nas escolas, nas escolas de idiomas e na Universidade. Então, vejo uma relação direta entre o trabalho desses profissionais, o trabalho do tradutor e o trabalho de leitura por parte do público leitor. O gosto pela leitura e o possível gosto pela leitura de um texto traduzido podem nascer, também e sobretudo, no ambiente escolar e universitário. Não poderia deixar de expressar a minha gratidão e dizer muito obrigado para todas essas pessoas.

Muito obrigado pela atenção e espero que você tenha apreciado a leitura. Até a próxima publicação!

 

Sobre a pintura:

Vincent van Gogh (1853 – 1890)

O par de sapatos

Paris, setembro-novembro 1886

óleo sobre tela

Van Gogh Museum, Amsterdam (Vincent van Gogh Foundation)


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