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Friday, August 14, 2026

Algumas impressões sobre livros

    



Livros são permeados por ideias. Mas não só isso. Nas folhas, numeradas talvez por uma questão de conveniência, livros estão prontos para acolher e estão prontos para ser abertos a fim de expressar o que de humano habita em nós. Se um livro foi escrito, é porque alguém usou as palavras para insinuar, propor, ou se preferir, manifestar, ou ainda, dissimular, velar ou mesmo explicitar, em algum momento da vida e por meio de seu ponto de vista, o que nele há de pessoal. Livros não deixam de ser um tópos onde as pessoas vivem. Por isso, livros também são permeados por olhos observadores nos mais variados formatos e espectro de cores, expressões gestuais, corporais ou faciais, peles em suas diferentes tonalidades e texturas, cabelos em seus mais diversos cortes, tipos e estilos – inclusive a escassez –, suores, cheiros, músculos, fibras nervosas, vísceras, células, ossos, sangues, hormônios, fluídos, afetos, medos, ingenuidades, maturidades, entusiasmos, ternuras, deleites, dissabores, tédios, melancolias, tristezas, angústias, alegrias, imagens, ansiedades, pavores, fobias, efusões, inquietações, vacilações, frustrações, investigações, ruminações, questionamentos, surpresas, descobertas, vivências, segredos, intimidades, serenidades, levezas, alívios, descansos, cansaços, fadigas, insônias, decoros, libertinagens, petulâncias, ironias, sarcasmos, deboches, humores, risadas, ritmos, pausas, passeios, caminhadas, deslocamentos, paisagens, viagens, animais, encontros, abraços, beijos, sabores, gostos, goles de café, desencontros, desentendimentos, desacordos, discussões, conflitos, brigas, abandonos, indiferenças, choros, nós nas gargantas, vícios, virtudes, lugares, credulidades, incredulidades, memórias, civilizações, utopias, etc.: mãos que escrevem e o olhar atento que testemunha as palavras sendo jogadas no mundo. Em livros, encontramos pessoas, e por meio desses encontros, chegamos, por exemplo, em suas construções literárias articuladas em histórias atravessadas por personagens concebidos de acordo com os limites da própria imaginação, inclusive, e não raro, a abundância de personagens que transparecem a mais plena carência dos traços daquilo que nos cânones, nos tratados da boa convivência ou no simples bom senso, fruto da camaradagem amistosa e afável entre as pessoas, reconhecemos por humanidade – tal como quando um vilão ou uma vilã suscita nos leitores ou leitoras uma torrente de repulsa, indignação ou revolta. Mas, por incrível que pareça, não deixa de ser curioso o fato de que, mesmo um personagem repugnante, fruto da imaginação humana, logo, inventado por uma pessoa, consegue inflamar as paixões, e se reprovamos as suas atitudes, é porque, em nós, insiste viver uma pessoa que ainda tem sensibilidade.



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Monday, September 15, 2025

Fios tecendo o tecido

 



Hoje pensei no poema de João Cabral de Melo Neto


 

manhã

amanhã

(a manhã)

E

o amanhã

 


Aquele tecido tão aéreo, a leveza:

 

Luz balão

 


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Friday, May 9, 2025

Algumas palavras ridiculamente insignificantes

 

 

As palavras que escrevo agora, ainda que possam ser ridiculamente insignificantes, são dedicadas aos animais abandonados.


Animais pensam e têm sensibilidade. Eles sofrem e as condições de privação e desconforto degradam as suas vidas. No desamparo, uns aparentam maus tratos e outros aparentam estar assustados e inquietos. Uns são frágeis e afáveis. Outros, nem tanto. No entanto, todos eles merecem ser tratados com dignidade e respeito. Por outro lado, cada um deles, com as suas próprias características e diferenças, percebem os fenômenos do mundo de acordo com as suas capacidades sensoriais.


O óbvio ululante?

 

Observou o que estou fazendo? Apanhei um pedaço de papel, rabisquei algumas ninharias e coloquei dentro de uma garrafa para jogar no oceano.

 

Palavras rabiscadas em um pedaço de papel e abandonadas à própria sorte!


Ah, mas que desatenção deste quem escreve! Faltava registrar a advertência:


Parte do aforismo é permeada pela ironia, e outra parte, pela provocação:


 Palavras jogadas no mundo, afetuosamente, merecem receber a acolhida calorosa por parte do leitor ou leitora?


Obviedades que valem a pena ser rememoradas.

 


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Tuesday, January 21, 2025

Ainda é preciso ser leitor?







 

As pessoas grandes nunca entendem nada por elas mesmas, e é muito cansativo para as crianças ficarem sempre explicando as coisas para elas

Antoine de Saint-Exupéry, O pequeno príncipe


 

    Assim como algumas pessoas, gosto da companhia dos livros. E passei a valorizar ainda mais esse convívio depois que comecei a refletir sobre tudo o que um rastro de palavras impresso em uma folha de papel pode representar. Em minha pessoa, a faceta de filósofo e a de tradutor têm algo em comum: ambas encontram na organicidade das palavras certos nutrientes que estimulam o nascimento de novos pensamentos. O filósofo, munido de seu ceticismo, em uma espécie de prontidão, coloca sob suspeita o que é passível de questionamento. O ceticismo oferece instrumentos importantes para a boa manutenção da lucidez, sobretudo nos dias em que um espesso nevoeiro paira na atmosfera. O tradutor, munido de suas habilidades tradutórias, sempre promovendo o convívio estreito de pelo menos dois idiomas, viabiliza a comunicação. A tradução oferece instrumentos importantes para ampliar as capacidades de comunicação, sobretudo nos dias em que a arte da conversação anda sendo tão maltratada. Neste sentido, quando se trata de palavra escrita, o olhar apreende a leitura que perpassa simultaneamente o filósofo e o tradutor.

    Mas não quero falar sobre a faceta de filósofo, nem sobre a faceta de tradutor. Quero apenas explorar um pouco mais esse lado que permeia ambas as facetas: o hábito da leitura. Filósofo e tradutor, também são, antes de mais nada, leitores. O filósofo encontra nos livros legados ao longo da história da filosofia as mais diversas correntes de pensamento. E cada uma delas pretende transmitir os mais variados ensinamentos. Entretanto, o filósofo encontra no ceticismo uma maior afinidade de pensamento. O tradutor encontra na sua atividade profissional as oportunidades para edificar os mais diferentes vínculos com a vida cotidiana. E cada uma dessas oportunidades representa a viabilização prática de diferentes virtudes sociais. Entretanto, o tradutor encontra na tradução técnica os meios para colocar em prática algumas habilidades e reconhece a influência de Wittgenstein e suas reflexões sobre a linguagem durante os momentos de trabalho. Assim, filósofo e tradutor encontram no convívio com as palavras um hábito formidável. De um lado, temos a reflexão crítica, e de outro, a investigação incessante em busca do significado e da melhor solução tradutória para viabilizar a comunicação.

    O convívio com os livros é uma maneira de aperfeiçoar e dignificar o gênero humano. Sou aquele tipo de pessoa que mantém uma relação dúbia com as palavras. Calma, eu explico! Leio por prazer e por obrigação. Quando estou lendo por prazer, sinto um tipo de satisfação muito agradável em virtude da ausência de qualquer tipo de obrigação: escolher um exemplar na ainda modesta biblioteca – edificar uma biblioteca é um empreendimento para uma vida inteira – é um momento muito gostoso. Passar algumas horas na companhia de um autor ou autora é um momento de encontro. As palavras escritas no papel oferecem a oportunidade de iniciar um certo tipo de comunicação: autor e leitor vivem nas palavras o ponto de encontro. Mas, ler por obrigação, durante as rotinas tradutórias, não implica necessariamente a ausência de prazer na leitura. Trabalhar com diferentes projetos de tradução, com prazos curtos e os mais variados tipos de exigência, é algo apaixonante. Os desafios, os diferentes textos, as informações envolvidas, os mais diversos aspectos representam uma oportunidade de colocar em prática diferentes habilidades tradutórias. E o tradutor sempre aprende algo novo em suas atividades, uma vez que as habilidades podem ser aperfeiçoadas em diferentes situações.

    A escrita deixa rastros de pensamentos em uma folha de papel em branco. Palavras, frases, parágrafos, páginas, capítulos e eis que temos um livro. Em incontáveis horas de trabalho, o percurso de um itinerário existencial torna-se inteligível por meio de palavras. Horas e horas de trabalho, mas e quanto a todo o tempo de vivências propriamente dito? E quanto ao tempo de maturação das reflexões? Com toda a riqueza da matéria-prima, quais são os instrumentos de trabalho para moldá-la? Papel e caneta sobre a escrivaninha, uma luminária para dissipar a penumbra, mais um corpo disposto a pensar... sobre o que escrever. Ainda que o computador esteja presente na vida cotidiana, muitas pessoas ainda escrevem dessa maneira. Uma palavra que desabrocha nos rincões mais recônditos, num impulso elétrico, assim como Nietzsche dizia, circula pelo corpo inteiro: da cabeça desce pelos braços, passa pelas mãos e flui pela ponta dos dedos até desembocar na caneta empunhada que suja a folha do papel com as cores de símbolos estranhamente desenhados e curiosamente decifráveis pelo testemunho atento do olhar: existo porque a palavra que está em mim está no mundo.    

    Em épocas passadas, mas num passado não tão remoto, as coisas aconteciam mais ou menos assim. Escritores acumulavam calhamaços de papel escrito em seus escritórios. Os manuscritos originais, como se costuma dizer, cheios de rastros de pensamento. E pensar que, num passado mais remoto, essa mesma prática era bem mais complicada, por razões óbvias. Avanços tecnológicos incipientes, carência na adequação de recursos materiais. Por exemplo, na Antiguidade era comum registrar as informações em blocos de pedra, tábuas ou papiro. Houve a adoção do papel e uma pena passou a ser usada para desenhar as palavras. O trabalho na escrivaninha era rudimentar, uma vez que não havia energia elétrica, logo a luz de uma vela era responsável por dissipar a penumbra e viabilizar a atividade de pensamento.

    O surgimento da escrita foi algo notável para a civilização. A linguagem tornou-se exprimível e interpretável por meio de uma língua determinada em símbolos imagéticos. Os símbolos desenhados. As teorias da comunicação indicam que, antes da escrita, a oralidade era o meio de transmissão primordial que viabilizava as trocas comunicativas. Ou seja, a comunicação estaria toda alicerçada nos sons, e neste sentido, sob o ponto de vista da expressão corporal, oralidade e audição teriam um papel privilegiado na comunicação. É curioso notar que a possibilidade de sistematização alfabética da escrita representou uma nova maneira de expressar e explorar a linguagem. A comunicação passa a se estender para outras regiões do corpo, como os braços, as mãos e olhar, para expressar a língua por meio da escrita. Se há comunicação, é porque muitas regiões do corpo estão envolvidas na expressão da linguagem. Assim, surge a possibilidade de alicerçar a comunicação escrita num meio materialmente palpável, como blocos de pedra, tábuas ou papiro. Aliás, já havia comunicação antes da escrita? Os sons desordenadamente emitidos e os movimentos corporais poderiam ser caracterizados como um modo de comunicação? O que é comunicação? Os animais não humanos são capazes de se comunicar? Suspeitas à parte, o fato é que a escrita surgiu num dado momento.

    No atual estado em que as coisas se encontram, talvez boa parte dessas questões não passe pela cabeça de muitas pessoas, afinal de contas as palavras sempre estiveram presentes na vida cotidiana de modos diversos. Entretanto, talvez essa noção seja um tanto quanto cômoda, uma vez que pensar sobre a origem da escrita e suas implicações ulteriores para a cultura pode ser um trabalho de fôlego, sobretudo quando alguém deseja articular uma compreensão mais ampla e aprofundada sobre o tema. O desenvolvimento da linguagem é uma conquista civilizacional. E quanto mais pessoas são alfabetizadas, na língua materna e eventualmente em outras línguas, tanto melhor para todo mundo. Por exemplo, uma pergunta parece ser especialmente oportuna agora. Qual foi o impacto que a escrita provocou na cultura então vigente quando ela surgiu na Antiguidade? O status quo da cultura oral estava estabelecido, e assim, tenho a impressão de que a novidade deve ter gerado as mais diversas reações. Porém, parece não fazer muito cabimento explorar uma pergunta dessa envergadura no espaço de um blog – e nem seria essa a minha intenção. Mas, ainda assim, trago deliberadamente a pergunta para que o leitor ou leitora seja estimulado com a proposta de uma possível reflexão.

    A cultura ocidental tem dois autores cujas obras são consideradas fundamentais. Estamos falando de Homero e Hesíodo. Há controvérsias em torno da figura desses dois poetas. Há teorias que defendem a ideia de que esses autores existiram, mas há teorias que defendem a ideia de que diversos outros poetas foram unificados nas figuras de Homero e Hesíodo, ou seja, o trabalho coletivo de inúmeros poetas foi reunido e o resultado desses trabalhos foi creditado unicamente ao nome desses dois poetas. Homero é autor da Ilíada. E Hesíodo é autor de Os trabalhos e os dias. Os poemas homéricos eram transmitidos pela oralidade, assim como os poemas hesiódicos. Na obra de Homero, os poemas épicos relatam os feitos heroicos e figuras lendárias durante a Guerra de Troia, e neste sentido, temos o ideal da cultura aristocrática, onde a coragem era ressaltada como um valor capital. Na obra de Hesíodo, também há o relato de feitos heroicos, entretanto, Hesíodo narra esses feitos no âmbito da vida campesina, com o trabalho árduo no campo por meio de pessoas que cultivavam penosamente a terra com o suor do rosto para garantir a manutenção da vida. Braços, mãos e corpos. Eis o valor e a importância do trabalho.

    Ou seja, na Grécia Arcaica, temos uma cultura eminentemente oral. Os aedos viajavam por diferentes lugares e recitavam esses poemas. As pessoas ouviam aqueles versos e todo um imaginário foi sendo fecundado – é importante notar que, conforme a própria civilização torna-se culturalmente diversa, muitas daquelas noções passaram a ser problematizadas. Originalmente, o poema é um tipo de expressão que privilegia a oralidade, pois toda a sua estrutura métrica, as sílabas poéticas e todo o esquema rítmico de versificação e entonação oral teriam como objetivo facilitar a memorização dos versos e provocar um efeito sonoro agradável aos ouvidos. Isto é, o trabalho dos poetas tem tudo a ver com um trabalho de memória. As habilidades em torno da memória eram habilidades extremamente valiosas, uma vez que ser capaz de se recordar de uma infinidade de versos era uma tarefa bastante complexa. E não menos complexa eram as habilidades em torno da recitação adequada daqueles poemas, com todo o trabalho de expressão oral envolvido.

    Assim, esse tipo de cultura passou a ser transmitido ao longo de gerações. As próprias comunidades e os mais diferentes tipos de sociabilidade passaram a se organizar em torno dessa noção. E com o surgimento da pólis, temos as condições favoráveis para o florescimento do pensamento filosófico, histórico, científico, além da literatura, arquitetura e da própria Democracia. É nesse ambiente que a escrita começa a se propagar. Mas não pense que a adoção da escrita foi um acontecimento sem maiores repercussões. Muito pelo contrário! Adotar a escrita representava naquele momento uma mudança profunda na maneira de se comunicar ou até mesmo de organizar a sociabilidade. Tendo em vista que as pessoas estavam acostumadas a transmitir o legado cultural por meio da oralidade, então quais seriam as possíveis implicações para a cultura com a adoção da escrita? Se os poetas tiveram um papel relevante na tradição oral, o que poderia acontecer com eles com o surgimento da escrita? Se um poeta usasse a memória para transmitir os versos, logo ela exercia um papel central nessas práticas, então quais seriam os possíveis impactos para a memória com a adoção da escrita?    

    É curioso notar, por exemplo, a posição de Platão à época. Segundo o filósofo, a adoção da escrita poderia gerar sérias implicações para a cultura. Platão considerava que o texto escrito poderia ser uma fonte de infinitas controvérsias. Diferentemente de uma recitação oral, onde é necessário haver a presença de uma pessoa para recitar um poema, as palavras no papel poderiam circular livremente, sem haver a necessidade da presença de uma pessoa, uma vez que a existência do texto passaria a ser um evento autônomo e independente. Ou seja, com a adoção da escrita, autor e texto poderiam existir de maneira autônoma e independente, sem que ambos estivessem necessariamente presentes para que a mensagem se tornasse inteligível. Além disso, um outro problema levantado por Platão considerava a interpretação. Como um autor poderia explicar as suas próprias ideias com o leitor tendo acesso direto ao texto sem haver a necessidade de sua presença? Uma interpretação poderia estar equivocada, ou ainda, um leitor poderia ter dúvidas. Não bastasse isso, Platão considerava que o texto escrito poderia representar um impacto para o pensamento, pois se as palavras fossem escritas, não haveria mais a necessidade de recorrer à memória, ou ao próprio pensamento, para transmitir a comunicação. Tudo ficaria registrado em outro lugar. Isto é, haveria o declínio do uso da memória e do pensamento, e isso poderia representar um sério problema. Algumas dessas impressões estão presentes em Textos básicos de linguagem de Platão a Foucault.

    Platão introduziu a problemática em torno da sociedade letrada. Adotar as letras como meio de expressão, promoção da cultura e manutenção das instituições implica difundir e ensinar a aquisição dessas habilidades entre as pessoas. A escrita foi adotada, e as objeções levantadas por aquele filósofo foram importantes no sentido de problematizar e estimular o debate sobre aquilo que representou uma mudança cultural profunda na Antiguidade. Muitas obras foram escritas e graças à adoção dessa prática podemos ter acesso ao teor de certos textos com valor inestimável. Registrar um texto por meio de palavras tem a vantagem de poder legá-lo à posteridade. Uma obra literária pode romper a barreira do efêmero para tornar-se parte do conjunto de um patrimônio cultural. Hoje, temos uma variedade incrível de livros. Os assuntos e os títulos são diversos. E, além disso, podemos ter um convívio muito gostoso com os clássicos escritos por autores e autoras de outras épocas. Mas não pense que não houve eventos traumáticos envolvendo a escrita ao longo da história. Por exemplo, como avaliar tudo o que foi perdido com o incêndio da Biblioteca de Alexandria, momento em que os textos com teor inestimável para a humanidade arderam em chamas? Fahrenheit 451? Não bastasse isso, ainda na Antiguidade, como mensurar as implicações decorrentes do fechamento oficial das escolas de filosofia para o livre curso do pensamento?

    Desse modo, é importante considerar o papel que os livros e a escrita exercem para a promoção dos valores civilizacionais. Diferentes gêneros textuais, diferentes autores e autoras e diferentes estilos. Uns dizem que encontramos em cada um desses elementos um bom pretexto para nos olharmos diante do espelho. Outros dizem que encontramos em cada um desses elementos um bom pretexto para conhecer outras personalidades. Schopenhauer diria que o estilo é a expressão da própria personalidade. Assim, a experiência de leitura pode ser inquietante, provocativa, zombeteira, edificante, subversiva ou mesmo tranquila. Há quem diga que bons autores são aqueles que conseguem colocar em movimento as paixões. Cada camada de leitura, um novo afeto, novas impressões. Há livros que conseguem deixar o leitor ou leitora com os olhos marejados, com um nó na garganta, como no caso de Os miseráveis, de Victor Hugo. Mas há livros que conseguem levar o leitor ou leitora para um lugar ingenuamente terno, mas, ao mesmo tempo, sem deixar de lado a potência da mensagem, como no caso de O pequeno príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry. E não há como deixar de notar nos textos filosóficos o trabalho de pensamento quando alguém se propõe a levá-lo ao limite.

    Neste sentido, os livros podem ser uma fonte de reflexão muito fecunda para a promoção de atos de benevolência. Essa virtude social anda de mãos dadas com os livros. A benevolência, por exemplo, exerce um papel notável na filosofia de David Hume. Podemos considerar a benevolência como uma espécie de cimento que concretiza o vínculo entre as boas ações. Hume estudou na França, e além disso, foi amigo dos philosophes, entre os quais, Denis Diderot –  juntamente com D’Alembert, Diderot foi o editor responsável por um dos maiores empreendimentos editorais do Séc. XVIII, a Encyclopédie. O filósofo escocês sempre foi muito bem acolhido todas as vezes em que esteve em território francês, e isso é um forte indicativo de que Hume praticava e tinha um grande apreço pela sociabilidade, ou seja, um traço concreto da benevolência. É importante ressaltar que Hume foi um filósofo simplesmente apaixonado pela literatura. Além de filosofia, Hume devorava outros gêneros, como história, ensaios e os mais diversos temas. Ele foi um verdadeiro frequentador das belas letras, sobretudo dos clássicos latinos. Num dado momento de sua vida, Hume chegou ainda a ser bibliotecário, o que viabilizou o acesso a uma infinidade de livros. A paixão pelos livros nutria as suas reflexões e podemos perceber isso quando lemos os seus textos. Assim, a paixão de Hume pelas belas letras pode servir como um incentivo para que o leitor ou leitora do blog trilhe os seus próprios caminhos pelas mais diversas páginas de um livro.

    Reservar algum momento do dia para cultivar o hábito da leitura pode ser uma atitude transformadora. Ler é edificante. Ou não, dependendo do ponto de vista! Alimentar o pensamento com novas ideias pode ser desafiador. Por meio das leituras, é possível aperfeiçoar outra virtude social extremamente benéfica para o bom convívio social, uma vez que o contato com as palavras pode aperfeiçoar o gênero humano. É aqui que entra em cena a simpatia, um outro componente filosófico presente em Hume. Para que haja a benevolência, é necessário reconhecer a importância e o valor da figura do gênero humano. Seres humanos têm sentimentos e podem sofrer. A simpatia pode ser considerada como um vetor para o direcionamento da benevolência. Se as ações benevolentes podem ser consideradas uma espécie de cimento que concretiza o vínculo entre as boas ações é porque existe um ser humano que será perpassado pela benevolência durante a sua propagação. A simpatia nasce quando consideramos a possibilidade de nos colocarmos no lugar de outrem, ou seja, quando estamos propensos a nos sensibilizar com as dores, angústias e o sofrimento alheios. Ou seja, quando literalmente nos colocamos na pele de outra pessoa. Mas a simpatia não está restrita simplesmente ao âmbito dos seres humanos; ela também se estende aos outros animais e formas de vida. Eles também têm sensibilidade, sofrem, pensam, ainda que de maneira distinta da nossa, e neste sentido, merecem respeito. Assim, não posso deixar de lembrar da simpatia que os cães, por exemplo, sentem em relação a tutores ou tutoras. É o caso do cocker spaniel Flush, personagem central da obra homônima de Virginia Woolf, que dava cambalhotas de felicidade quando via sua tutora. Sendo assim, por meio das leituras, afeiçoamo-nos com os mais diversos personagens. Como não se compadecer com a história de Fantine e Cosette? O que dizer da figura dos Thénardiers? E o que fizeram com Cosette? Depois que os “miolos secaram”, tamanha era a dedicação à leitura, em virtude do acesso a uma ampla biblioteca, como não se sentir tocado quando D. Quixote decidiu se tornar cavaleiro e sair pelo mundo em busca de aventuras com o seu companheiro Sancho Pança? Como não ficar perplexo com Os sofrimentos do jovem Werther? Por isso, aprendemos também a exercitar a gratidão pelos escritores e escritoras por terem sido capazes de imaginar histórias tão valiosas, além de, num ato de generosidade, terem partilhado cada uma delas conosco.

    Sendo assim, quando o cultivo da simpatia nasce entre as pessoas, o ambiente torna-se propício para o cultivo de outra virtude social. Estamos falando da generosidade. Hume considera que, ao contrário de outros filósofos, como é o caso de Thomas Hobbes, os seres humanos não são unicamente egoístas. Além do egoísmo, ou seja, do amor próprio e da consideração de nossos próprios interesses, também somos altruístas, ou seja, consideramos o bem-estar e os interesses alheios. Em muitas de nossas relações cotidianas, ou até mesmo em nossas relações com os outros animais, agimos tendo em vista o bem-estar alheio. Por exemplo, quando estamos com um carrinho de compras na fila do supermercado e uma pessoa chega, com alguns poucos itens, e pergunta se não seria possível ceder o nosso lugar para que ela possa passar na frente. Obviamente, não seremos egoístas. Ou ainda, quando um gatinho de rua pula o muro de nossa casa e passa a conviver conosco em nosso quintal. Obviamente, acolheremos aquele animalzinho, alimentá-lo-emos, daremos água e carinho. Nesses dois exemplos, demonstramos como o altruísmo é capaz de promover ações desinteressadas. No primeiro caso, ele foi capaz de produzir um ato de gentileza. No segundo caso, ele foi capaz de produzir um ato de acolhida. Por outro lado, além das relações entre seres humanos e animais, também é necessário considerar a relação entre seres humanos e natureza. E essa relação é sobretudo filosófica. Os nossos interesses particulares também devem levar em consideração a natureza. Quando as ações humanas fazem intervenções na natureza, os fenômenos naturais tendem a se intensificar, e assim, o que já era dotado de força, tende a se fortalecer ainda mais. Neste sentido, se levarmos em conta apenas os interesses humanos em detrimento dos interesses da natureza haverá um desequilíbrio na balança do egoísmo vs. generosidade. Assim, para haver o equilíbrio, também é necessário considerar a natureza para que ela não se volte contra os seres humanos, animais e outras formas de vida.

    Entretanto, passamos por momentos de dificuldade ou dolorosos, e em momentos como esses, o convívio com os livros e todos os modos possíveis de expressão artística, ou até mesmo com amigos, tornam-se inestimáveis. Com eles, podemos encontrar uma fonte importante para o cultivo de novas reflexões. Nas belas letras e nas artes, poderemos visitar autores, autoras e artistas para que os nossos pensamentos sempre estejam em movimento. A literatura, as belas letras e as artes em geral desempenham um papel considerável no aperfeiçoamento do gênero humano, assim como foi dito, suavizando os seus traços. Assim, pensar juntamente com as outras pessoas, sobretudo com as pessoas que têm lições importantes para partilhar, torna a vida mais leve, e a sensação que temos é como se estivéssemos vivendo um grande passa tempo em detrimento dos golpes imprevisíveis da fortuna. A tradição filosófica ocidental, por exemplo, tem mais de 2.500 anos e certamente muitas questões e temas com os quais filósofos e filósofas vêm pensando podem ser uma fonte bastante considerável de ensinamentos. Em especial, a “escola” cética, que tem como prática a suspensão do juízo, cujo fim é a tranquilidade, sempre mantendo sob suspeita as alegações dogmáticas. Nas palavras, em especial, podemos encontrar a seiva vital para nutrir as nossas ideias. E, assim, o hábito da leitura pode se tornar uma experiência transformadora. A arte da conversação, por outro lado, desempenha o papel promotor das mais diversas trocas intersubjetivas. É o que ocorre quando terminamos de ler um livro e passamos a partilhar as impressões de nossa leitura com as outras pessoas.

    Caro leitor ou leitora, gostaria de concluir com um alerta. Observe que os argumentos expostos ao longo deste ensaio não têm nenhuma pretensão de revelar a natureza das coisas. Como disse em outras oportunidades, a argumentação cética tem uma pretensão bem mais modesta em relação ao empreendimento filosófico. Por exemplo, quando vamos ao consultório médico é comum haver a solicitação de certos exames para fazer o acompanhamento rotineiro e saber como anda o estado de saúde. Quando retornamos, já com os exames em mãos, ficamos sabendo dos resultados. Então, dependendo dos tipos de exame e dependendo dos resultados, eles poderão indicar certas carências, como a falta de certas vitaminas, momento em que provavelmente receberemos uma prescrição indicando a necessidade de suplementação para repô-las. De maneira análoga, a falta do hábito da leitura apresenta indícios de longa data indicando a manifestação de certas carências, o que é possível observar por meio de certos “sintomas” aparentes, e por isso, a recomendação da leitura teria o simples objetivo de 1) suprir algumas carências em decorrência da ausência do hábito da leitura – obviamente para quem não cultiva o hábito –; e 2) reforçar o incentivo para quem já cultiva o hábito, tendo em vista que, por meio das palavras, pela diversidade de leituras e pela visitação a diferentes autores e autoras poderemos encontrar uma suplementação balanceada e adequada para a boa manutenção das necessidades intelectuais.

    Muito obrigado pela atenção e espero que você tenha apreciado a leitura. Até a próxima publicação!

 

Referências bibliográficas:

 

BRADBURY. R. Fahrenheit 451. Trad. Cid Knipel. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2020.

CORDERO, N. L. A invenção da filosofia. Trad. Eduardo Wolf. São Paulo: Odysseus Editora, 2011.

GOETHE, J. W. Os sofrimentos do jovem Werther. Trad. Marion Fleischer. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

HESÍODO. Os trabalhos e os dias. Trad. Luiz Otávio Mantovaneli. São Paulo: Odysseus Editora, 2011.

HOMERO. Ilíada. Trad. Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2013.

HUGO, V. Os miseráveis. Trad. Frederico Ozanam Pessoa de Barros. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2017.

HUME, D. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora Unesp, 2003.

MARCONDES, D. Textos básicos de filosofia da linguagem de Platão a Foucault. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.

NIETZSCHE, F. W. Sobre verdade e mentira. Trad. Fernando Moraes de Barros. São Paulo: Hedra, 2007.

PEREIRA, O. P. Rumo ao ceticismo. São Paulo: Editora Unesp, 2007.

SAAVEDRA, M. C. O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha. Trad. Sérgio Molina. São Paulo: Editora 34, 2016.

SAINT-EXUPÉRY, A. D. O pequeno príncipe. Trad. Rafael Arrais. São Paulo: Faro Editorial, 2022.

SCHOPENHAUER. A. O mundo como vontade e como representação (1º tomo). Trad. Apr. Notas e Índices: Jair Barboza. São Paulo: Editora Unesp, 2005.

SMITH, P. O que é ceticismo. São Paulo: Brasiliense, 1992.

______. O ceticismo de Hume. São Paulo: Loyola, 1995.

THOMAS, R. Letramento e oralidade na Grécia Clássica. Trad. Raul Filker. São Paulo: Odysseus Editora, 2005.

WILSON, A. M. Diderot. Trad. Bruna Torlay. São Paulo: Perspectiva, 2012.

WITTGENSTEIN, L. Investigações filosóficas. Trad. Marcos G. Nontagnoli. Rev. da Trad. e Apr.: Emmanuel Carneiro Leão, Petrópolis: Vozes, 2009.

WOOLF, V. Flush. Trad. Jorio Dauster. Pref. Anna Snaith. Ilustrações: Vanessa Bell, São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2020.


Sobre a pintura:


Vincent van Gogh (1853-1890)

Os comedores de batata

Óleo sobre tela sobre painel

KM 109.982

Kröller Müller Museum


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Monday, December 9, 2024

Memórias de uma tarde de verão

 

 

Não esqueço da imagem de Paola, numa dessas tardes de verão, quando estivemos juntos há alguns anos.



Uma tarde agradável, acolhedora e tranquila.

 

 

Caminhos, trajetórias, experiências, idades e duas pessoas.



No afeto, encontramos o acordo em comum – transitório, permeado por consideração.



Uma tarde gostosa, e do lado de fora, pela janela, vimos a chuva de verão.



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Habilidades de um camaleão

 

 

Não menos curioso, o cameleão é um réptil sobre o qual a biologia poderia fazer uma descrição minuciosa. Entre as características mais marcantes poderíamos citar a óbvia capacidade de camuflagem, a visão binocular, o corpo, os detalhes das patas e dedos, a cauda alongada e a existência de diversas espécies. Diferentes espécies de camaleões comungam entre si algo em comum, digamos, uma espécie de camaleonidade – o que os torna camaleônicos.

 

 

Sendo camaleões, um detalhe chama a atenção: quando estão procurando comida, soltos na natureza, e encontram uma presa, no caso um inseto, um olho fica fixo nele, e o outro faz uma inspeção constante e ininterrupta no ambiente circundante para garantir a segurança, evitar o perigo e as ameaças.

 

 

Então, muito pacientemente, o camaleão vai se aproximando do inseto, seguindo camuflado entre as folhagens, depois, com os dois olhos focados nele, o camaleão passará a analisá-lo e esquadrinhá-lo para que o cálculo preciso culmine no lançamento da longa língua – momento em que, após capturado, o inseto servirá de refeição para a manutenção do ciclo vital.

 

 

Nos jogos de cores, réptil e ambiente tornam-se harmonicamente fundidos na mesma paisagem.

 

 

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Wednesday, November 27, 2024

A sabedoria de joão e joaninha-de-barro

 


Jão-de-barro e joaninha-de-barro são dois pássaros muito curiosos.

 

Em uma notável parceria da natureza, quando o ninho está em processo de construção, eles unem as suas forças em diversas viagens para edificar as paredes do lar.

 

Em um trabalho penoso e incessante, incontáveis são as viagens até que as paredes sejam edificadas e o ninho como um todo passe a estar integrado na paisagem.

 

Então, o ninho, produto de uma refinada engenharia, feito de barro, diferentemente de outros ninhos, e neste sentido, aparentemente bem mais robusto, acolherá os seus filhotes e protegerá todos os entes queridos contra os perigos das intempéries.

 

Dois seres tão miudinhos – ou seriam gigantes? – dotados de uma sabedoria valiosa:

 

A participação cooperativa no processo de construção de um lar atenua os esforços, além de promover o reconhecimento e o valor dos seres envolvidos – temos aqui o estreitamento e fortalecimento de laços profundos;

 

A construção de um lar leva tempo e por isso é importante reconhecer e valorizar tudo o que ele pode representar – mas não só isso, habitar um lar implica a manutenção do cuidado constante para que ele possa continuar existindo.

 

 

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Monday, November 11, 2024

Quando me saciei na linguagem do gosto

  

 


Na semântica de tuas palavras, na inteligibilidade de tuas expressões, na tonalidade de tuas pronúncias

 

 

Nas vírgulas que delimitam os períodos em formulações de oração

Nas ambiguidades que se interpõem em momentos de apetência

Nas reticências que se afiguram em olhares de hesitação

Nos pontos de interrogação que se manifestam em ápices de petulância

Nos pontos de exclamação que irrompem em êxtases de eloquência

 

 

 Frui a sensação na apreensão da nuance em pormenor, folheando os versos, a rima e o ritmo da poesia em livro aberto, em plena poética

 


Pétala e flor

Textura, cor e paladar

Folhagem em vividez, rebeldia, bálsamo e frescor

 

 

Há flores cuja beleza instigam a contemplação: o sentido, sendo incógnito, estimula a curiosidade – a vivência da pergunta

 

 

Há flores cuja beleza também instigam a contemplação: porém, sendo o sentido autoevidente, a vivência da pergunta transforma-se – a vivência da descoberta



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Sunday, November 3, 2024

Três paisagens, três deslocamentos

 


Viajar?

Vagabundear por aí, sem destino, nem hora p’ra voltar?

A geografia litorânea, o clima?

 Coqueiros, palmeiras, a areia na praia, os passarinhos?

A paisagem costeira, o vai e vem das ondas, a sinfonia das águas, os peixes

– o litoral?

 

 

Viajar?

Vagabundear por aí, sem destino, nem hora p’ra voltar?

A geografia urbana, o clima?

Onde estão as árvores, as flores, os animais?

A paisagem civilizada, a circulação de carros, motos e pedestres, a miríade sonora

– a vida na cidade?

 

 

Viajar?

Vagabundear por aí, sem destino, nem hora p’ra voltar?

A geografia interiorana, o clima?

Cores, modos de vida, o verde, os animais?

A paisagem campesina, o vento na pele, o rio, os peixes

– o horizonte a perder de vista?

 

 

Viajar, vagabundear

 

 

Gostoso também é quando ocorre o deslocamento no tempo



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Thursday, October 31, 2024

Sabor de fruta ou sensualismo sensorial




Pense em uma fruta exótica, daquelas que nunca foram provadas: conseguiria ter a ideia do sabor dessa fruta?


 

    Agora pense no sabor de uma laranja, de um morango, de uma manga, de um mamão, de uma banana, de uma maçã, de um melão ou mesmo de um abacaxi.

 

 

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Saturday, October 26, 2024

Esboço aporético II

 






A consciência da finitude, da precariedade de qualquer condição em cada momento transcorrido, na transitoriedade, na gratuidade, na mais plena indeterminação de sentido, em suma, a certeza de que, jogados no mundo, ainda jogaremos a partida derradeira de xadrez.

 

 

***

 

 

    A consciência da fluição do tempo vai embora, sequer chegamos a percebê-la, tendo a sua própria noção se esvaziado, mesmo encarnados em um figurino de carne e osso, e eis que desenhamos um sorriso bobo no rosto, uma gargalhada, daquelas que acham graça das situações mais risíveis, e no bom humor sentimos a leveza de uma vida serena.



Sobre a pintura:

Vincent Van Gogh (1853 – 1890)

Noite estrelada sobre o Ródano

1888

Óleo sobre tela

Musée d’Orsay

 

 

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Tuesday, October 15, 2024

O dogma


 

Como escrever um poema sobre o dogma sem incorrer em dogmatismo?


 

Se afirmo:

O dogma paralisa a atividade de pensamento.

– Então, serei dogmático!


 

Se afirmo:

O dogma elabora julgamentos precipitados.

– Então, serei dogmático!


 

Se afirmo:

O dogma provoca a perturbação intelectual.

– Então, serei dogmático!


 

Se afirmo:

O dogma interdita a livre manifestação de pensamento e a pluralidade de ideias.

– Então, serei dogmático!


 

Se afirmo:

O dogma empobrece a possibilidade de compreensão de quem somos enquanto humanos.

– Então, serei dogmático!


 

Se afirmo:

O dogma restringe a relação dos humanos com os outros seres e modos de vida.

– Então, serei dogmático!


 

Se afirmo:

O dogma impede a livre investigação sobre a origem do cosmos ou da vida.

– Então, serei dogmático!


 

Se afirmo:

O dogma não tem nenhum apreço pelas conversas amistosas, a troca de ideias ou impressões sobre os mais variados aspectos sobre a vida.

– Então, serei dogmático!


 

Se afirmo:

O dogma não tem nenhum compromisso com a promoção de laços afetivos nem mesmo com o estreitamento dos mais diversos tipos de relacionamento.

– Então, serei dogmático!


 

Se afirmo:

O dogma deprecia a vida cotidiana e os prazeres mais triviais.

– Então, serei dogmático!


 

Se afirmo:

O dogma despreza a expressão espontânea da inteligência.

– Então, serei dogmático!


 

Se afirmo:

O dogma sequer imagina a possibilidade da busca pela tranquilidade.

– Então, serei dogmático!

 

 

 Então, o que fazer?

 

 

Uma alternativa:

O uso do – ? – em vez do – “!”



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Devaneio de um leitor apaixonado

 

 

 

Será que ainda me resta muito tempo para ler tudo o que quero?



São tantos os livros incríveis!



E construir uma biblioteca particular pode ser um projeto para uma vida inteira.

 

 

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Wednesday, October 9, 2024

Quando fui abrigado em um abraço

 



O jeito que você me acolheu

O jeito que você me abraçou

O jeito que você me abrigou

O jeito que você me aqueceu

 

 

Não precisamos de muita coisa para sermos felizes



Somos seres humanos:

Eis o que basta


E isso não é tudo?




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Monday, October 7, 2024

Filosofando ao modo cético: sobre o tropo dos animais e investigação

 




Em um sábado pela manhã, uma torrente de pensamentos, dessa que nasce espontaneamente, passou a acompanhar os meus passos ao longo do trajeto para a aula de espanhol. Foi na rua, caminhando pela calçada, vendo o movimento da cidade. Aliás, especificamente no meu caso, esse tipo de fenômeno é muito comum, sobretudo após a pergunta “o que é filosofia?” ter surgido no horizonte de nosso itinerário existencial. Muito comum, não! Poderia dizer mesmo que a atividade é praticamente incessante. Vislumbrar a pergunta, tentar compreendê-la, depois passar a cultivá-la, e finalmente, tentar respondê-la, pode ser um empreendimento bastante sedutor, empolgante e desafiador, cujos dividendos podem ser contabilizados em termos de satisfação com as conquistas advindas dos avanços paulatinos. Por outro lado, lidar com esse mesmo empreendimento não deixa de ser cheio de desafios, dúvidas e questionamentos – certamente –, em especial quando permitimos a livre e genuína manifestação de pensamento. Assim, filosofar pode ser uma prática para uma vida inteira. Mas, perceba que a pergunta é um tanto quanto desconcertante, assim como já foi dito em “Uma história de um livreto com as ‘suas páginas já amareladas’”,  e neste sentido, a pergunta “o que é filosofia?” tem tudo a ver com um modo muito singular de pensamento, ou seja, estamos falando do pensamento filosófico.

Há alguns dias, estava relendo as Hipotiposes Pirrônicas, do médico e filósofo Sexto Empírico. Mais uma releitura, aliás, pois revisito este texto com certa frequência e de tempos em tempos. Há certos livros que fazem parte de nossas vidas de uma maneira muito especial. É impressionante, quando estamos dispostos a amadurecer e aprofundar os nossos conhecimentos em relação a uma certa linha de pensamento, como cada nova releitura é capaz de evidenciar novas nuances e camadas de sutilezas inéditas – que até então haviam sido ignoradas. Ignoradas, não por negligência ou por falta de atenção, mas simplesmente porque, quando revisitamos o texto, estamos acompanhados e nutridos pela maturação de leituras prévias, ou seja, estamos acompanhados pelo amadurecimento de nossas próprias reflexões. Mas não é só isso! No meu caso, tenho por hábito ler outros pensadores e pensadoras. Assim como foi dito em outras publicações, tenho interesse em continuar lendo e estudando outras filosofias, pois, segundo o meu ponto de vista, é muito importante manter a constância das leituras. A tradição ocidental produziu muita coisa e nunca é demais ampliar os nossos horizontes filosóficos. E, especificamente neste ano de 2024, dediquei boa parte de meu tempo livre para ler O mundo como vontade e como representação, de Arthur Schopenhauer – caso o leitor ou leitora esteja acompanhando o nosso blog, será possível notar em outras publicações que este filósofo já esteve presente por aqui quando tive a oportunidade de apreciar a sua posição em relação à tradução. A leitura desse livro estava na minha lista de leituras já fazia um bom tempo. Quando se trata de estudos filosóficos, estudar uma nova linha de pensamento e tentar compreender um novo pensador ou pensadora é um hábito muito benéfico para o nosso próprio amadurecimento filosófico. Aliás, o livro de Schopenhauer apresenta uma seção específica voltada para uma abordagem crítica em relação à filosofia kantiana, o que me deixou muito feliz como um leitor que carrega uma bagagem de leituras provenientes da “escola” cética.

Digressão à parte, voltemos ao texto de Sexto Empírico. Na primeira parte das Hipotiposes, Sexto Empírico apresenta os aspectos gerais do ceticismo. Observe que, neste caso, o médico e filósofo tem em mente o ceticismo pirrônico, cujo fundador foi Pirro de Élis. Como Pirro transmitia os seus ensinamentos pela oralidade, ele não deixou nada escrito, e assim, o trabalho de Sexto Empírico foi decisivo para que o pensamento de Pirro pudesse ser conhecido depois que foi legado à posteridade. Ou seja, o texto de Sexto Empírico resgata e expõe a sua visão sobre o ceticismo pirrônico. Assim, nesta primeira parte, por meio de um texto muito acessível, cuja exposição é muito simples, mas não menos articulada, encontramos, como foi dito acima, os aspectos filosóficos mais gerais. Diferentemente das escolas dogmáticas, o ceticismo não teria a pretensão de oferecer um sistema filosófico. Para os céticos da antiguidade, a pretensão em relação ao empreendimento filosófico era muito mais modesta, ou seja, não se tratava de apresentar ao mundo um relato hermeticamente sistematizado sobre a natureza das coisas, muito pelo contrário! Segundo eles, o que estava ao nosso alcance era um relato bem mais despretensioso, ou seja, algo como uma descrição em relação à aparência das coisas. Diferentemente dos sistemas dogmáticos, que articulavam as suas respectivas filosofias, os céticos viam em cada um desses sistemas concepções teóricas conflitantes entre si, e neste sentido, onde há uma multiplicidade dissonante de teorias sobre uma mesma questão, não parece ser nada sensato colocar um ponto final e dar como finalizada a construção do empreendimento filosófico. Entretanto, o fato de Sexto Empírico não oferecer um sistema filosófico não quer dizer que o seu pensamento seja incoerente ou pouco rigoroso. Muito pelo contrário! É possível notar na exposição do Sexto Empírico como o seu pensamento é articulado e meticuloso. Pirro era daquele tipo de filósofo que estava mais preocupado com o caráter prático de suas ideias, ou seja, ele privilegiou o aspecto mundano e pragmático desses ensinamentos. E foi isso que Sexto tentou resgatar.

Neste sentido, se não somos capazes de fazer um relato sobre a natureza das coisas, a própria noção de conhecimento filosófico torna-se problemática. Ou seja, não é que os céticos não se preocupavam ou não davam importância para a construção desse tipo de conhecimento. Não vamos confundir as coisas! A possibilidade de construção do conhecimento filosófico é um empreendimento complexo e muito problemático, ou seja, trata-se de um empreendimento cheio de desafios. É necessário ter muito rigor e levar as investigações filosóficas até as últimas consequências. E naquelas circunstâncias, o melhor mesmo a ser feito, para evitar a precipitação e a formulação de teorias que poderiam se tornar problemáticas ulteriormente, e mais problemáticas ainda se recebessem a adesão de maneira irrefletida por parte dos adeptos, era suspender o juízo. Mas, então, a atitude dos céticos tinha a ver com uma espécie de denúncia em face ao dogmatismo? E qual era o teor dessa denúncia? O dogmatismo poderia engendrar efeitos nefastos para o pensamento quando, supostamente, as suas respectivas filosofias considerassem a construção do empreendimento filosófico terminada, colocando assim um ponto final na possibilidade de novas investigações, questionamentos, o livre exercício das dúvidas, assim como o alvorecer de novos debates. Em outras palavras, quando, supostamente, as suas respectivas filosofias considerassem que o ponto derradeiro do itinerário reflexivo havia sido alcançado.

Por outro lado, além da suspensão do juízo, tendo em vista tudo o que a filosofia poderia pensar, debater e refletir ulteriormente, os céticos também consideravam igualmente importante a investigação. E isso a tal ponto que ela deveria acontecer incessantemente. Neste sentido, o pensamento cético caracteriza-se, entre outras coisas, pela manutenção da investigação quando se debruça diante de outros sistemas filosóficos. Assim, temos dois elementos importantes: de um lado, a suspensão do juízo que viabiliza o alvorecer da livre atividade de pensamento, sempre em movimento, livre de dogmas; e de outro, a investigação que nutre o pensamento com novos elementos filosóficos passíveis de apreciação crítica. Eis um panorama bastante simplificado que podemos encontrar na primeira parte das Hipotiposes. Gostaria de explorar um pouco mais esses dois aspectos.

Quando estava caminhando pela calçada naquela manhã de sábado, no percurso para a aula de espanhol, ouvi o canto de um passarinho. Não sou muito bom para identificar o canto dos pássaros e também faço confusão para saber quem é quem. São muitas as espécies e cada uma delas se expressa a seu modo, além de ter as suas próprias características. É fácil cometer um engano, por mais que os nossos sentidos sejam capazes de perceber os sons. É claro que certos cantos são inconfundíveis, como o do “bem-te-vi”, por exemplo. Entretanto, ainda que estejamos na cidade, no meio urbano, com poucas árvores e o predomínio de casas, prédios, concreto e asfalto, a manifestação dessas formas de vida convive conosco, ainda que de maneira restrita – infelizmente. Olhei para a árvore e logo percebi quando o passarinho voou em direção ao fio do poste de energia. Logo em seguida, ele alçaria voo para outro local, indo embora – seguindo o seu caminho. Por outro lado, para as pessoas com deficiências auditivas, as coisas podem ser diferentes. Quando presenciei a cena, o primeiro tropo de Enesidemo, ou seja, o tropo dos animais, veio ao pensamento.

Como disse anteriormente, os céticos suspendem o juízo em relação às formulações teóricas que tenham como pretensão revelar a natureza das coisas. Para fazer isso, eles recorrem a uma série de tropos, ou modos de suspensão, para lograrem êxito em suas estratégias. Esses tropos são empregados durante a argumentação para produzir a suspensão do juízo. E mais. O que está em jogo aqui seria justamente uma denúncia em relação aos efeitos nefastos que o dogmatismo poderia produzir para a atividade do pensamento. Na primeira parte das Hipotiposes, Sexto Empírico expõe os 10 tropos de Enesidemo – dos céticos mais antigos – e os 5 tropos de Agripa, além dos outros 2 tropos – dos céticos mais recentes –, com o propósito de indicar como a pretensão dogmática em relação à construção do conhecimento filosófico é algo muito mais problemático do que se possa imaginar. Trata-se de uma longa exposição onde Sexto Empírico explicita por que temos boas razões para colocar sob suspeita as alegações dogmáticas. Por outro lado, Sexto Empírico é muito prudente com a sua exposição, uma vez que ele considera o assunto em aberto, não estando completamente exaurido, havendo ainda a possibilidade de existência de outros tropos diferentes – que poderiam ser ainda mais suspensivos.

Quando aquele passarinho voou, fiquei imaginando como poderia ser a vida de um passarinho na cidade. Fiquei pensando: se a vida na natureza já é tão difícil – e aqui me recordo de uma passagem do Mundo como vontade e como representação, quando Schopenhauer entende que há uma luta constante e incessante na natureza pela vida –, imagine como ela pode ser ainda mais difícil na cidade, onde há uma escassez de recursos, alimentos, árvores, água para beber, em suma, um ambiente artificialmente organizado para acomodar, em grande medida, a vida dos seres humanos! A civilização criada para os humanos parece não ter levado em conta que o nosso planeta não foi feito única e exclusivamente para a nossa espécie! Ou seja, nós, como mais uma entre todas as outras espécies, habitamos este planeta, assim como outros seres vivos e modos de vida – com as suas diferentes características e constituições específicas.

Assim, parece-me que os seres humanos não têm nenhum privilégio em detrimento das outras espécies. Tenho a impressão de que não somos mais inteligentes ou mais naturalmente bem-dotados em relação às outras espécies ou modos de vida. Aliás, o que é inteligência? O que muitos animais podem fazer, nós não podemos fazer sem recorrer a algum meio tecnológico. Um passarinho pode voar. Um cachorro pode ouvir certas faixas de frequência sonora que os humanos não podem escutar, sem contar o faro muito mais apurado. Os gatos podem subir em muros, em árvores e até mesmo em telhados, entre outras coisas inimagináveis. Uma formiga pode carregar até N vezes o número de seu próprio peso. Em muitas circunstâncias, os instintos são muito mais precisos, rápidos e confiáveis do que a própria razão! Tenho a impressão de que temos certas características e que somos diferentes sob certos aspectos em relação às outras espécies e modos de vida. Mas isso não deveria ser uma razão plausível para alegarmos que temos mais direitos em relação às outras espécies e modos de vida. Como será que um passarinho se sente morando na cidade? A resposta para a pergunta parece óbvia, ou a própria pergunta parece meio tola, mas em algum momento será que estamos pensando sobre essas coisas quando estamos andando apressadamente pelas ruas da cidade? Aliás, será que chegamos mesmo a perceber o que há na cidade, além do asfalto e do concreto? O planeta não foi feito para nós, seres humanos, nós apenas o habitamos, assim como as outras espécies de seres vivos e modos de vida.

Perceba como as leituras de um texto filosófico podem ter uma grande influência em relação à nossa visão de mundo, e neste caso, em nossa relação com os outros animais. Se fôssemos seres unicamente egoístas, tenho a impressão de que as outras espécies, ou até mesmo a natureza como um todo, deveria existir para servir única e exclusivamente aos nossos próprios interesses. Entretanto, se investigarmos um pouco mais a questão, poderemos colocar um outro elemento nesta balança para que essa inclinação seja direcionada para o equilíbrio. Em muitas de nossas relações cotidianas, ou até mesmo em nossas relações com os outros animais, agimos tendo em vista o bem-estar alheio. Por exemplo, quando estamos com um carrinho de compras na fila do supermercado e uma pessoa chega, com alguns poucos itens, e pergunta se não seria possível ceder o nosso lugar para que ela possa passar na frente. Obviamente, não seremos egoístas. Ou ainda, quando um gatinho de rua pula o muro de nossa casa e passa a conviver conosco em nosso quintal. Obviamente, acolheremos aquele animalzinho, alimentá-lo-emos, daremos água e carinho. Nesses dois exemplos, demonstramos como o altruísmo é capaz de promover ações desinteressadas. No primeiro caso, ele foi capaz de produzir um ato de gentileza. No segundo caso, ele foi capaz de produzir um ato de acolhida.

Ainda na primeira parte das Hipotiposes, Sexto Empírico fala sobre investigação, uma das características do ceticismo. Em outras publicações de nosso blog, já tive a oportunidade de falar sobre esse conceito, e naquela ocasião, desenvolvi uma reflexão aplicada ao âmbito da tradução. Entretanto, o conceito de investigação tem um sentido amplo e sua interpretação pode ser multifacetada. No texto de Sexto Empírico, a investigação está direcionada para a apreensão das outras filosofias como objeto de reflexão. E neste caso, tenho a impressão de que a investigação anda de mãos dadas com a curiosidade. Para que seja possível haver a investigação, é necessário haver uma curiosidade quase que insaciável em relação a tudo. Assim, investigar, ou seja, seguir os traços, assemelha-se a uma nutrição. Alimentamos o pensamento com os elementos filosóficos das outras escolas, ou seja, lançamos um olhar apreensivo no sentido de termos à nossa disposição as outras filosofias como objeto de reflexão: levantar problemas, analisar a exposição de uma ideia, comparar o pensamento filosófico de seus respectivos autores, perceber a linha de desenvolvimento de uma doutrina e certas afinidades entre certas escolas de pensamento, formular objeções, etc. Tudo isso é fonte de muito prazer, uma vez que nossas habilidades intelectuais são colocadas em movimento. Enfim, muitas são as perguntas filosoficamente formuladas durante o estudo de uma filosofia. E sempre mantemos em nosso horizonte a suspensão do juízo.

Observe que, quando ouvi o canto daquele passarinho, na mesma hora, nasceu a curiosidade em relação a tudo que dizia respeito àquele animalzinho. A partir da percepção daquele canto, perguntei: “Como é o nome desse passarinho?”; “Será que ele é muito grande?”; “Quais são as suas cores?”; “Onde ele está?”. Perceba como a leitura de um texto filosófico pode influenciar a maneira pela qual somos capazes de colocar um ponto de interrogação diante das coisas que se nos apresentam. Aqui, estou me referindo a apenas um fenômeno específico. Como os céticos se propõem a mergulhar em uma investigação constante e ininterrupta, poderia dizer que, tendo em vista a grande variedade de fenômenos que se apresenta ao alcance dos sentidos, a filosofia, as próprias pessoas, os outros seres vivos e modos de vida, ou seja, o mundo como um todo,  tornam-se um imenso ponto de interrogação. A sensação de estranheza, diante das coisas, ou ainda, diante do frescor da novidade, é uma experiência constante. Eis o ponto de partida para a possibilidade de novas descobertas. E sempre estaremos munidos com todo o nosso aparato crítico para problematizar toda essa abordagem.

Assim, tudo o que foi dito neste texto não tem nenhuma pretensão de revelar a natureza dessas ideias. Apenas fiz um relato sobre a minha experiência pessoal, singular, particular e circunstancialmente determinada, depois que o contato com o texto de Sexto Empírico tornou-se um hábito em minha vida. Também fiz um relato sobre como essas ideias podem ter uma influência muito marcante em minha visão de mundo e, consequentemente, em minha relação com os outros animais, outros seres vivos e modos de vida. No entanto, todo esse relato é um relato feito por uma pessoa com uma certa idade, no ano de 2024, em plena primavera – estamos no hemisfério sul – e em circunstâncias muito específicas. Além disso, não tenho nenhuma pretensão de convencer as outras pessoas com o meu próprio ponto de vista, uma vez que cada pessoa tem o seu próprio ponto de vista e suas próprias apreciações em relação aos mais diversos aspectos sobre as coisas mais variadas. Tentar convencer o interlocutor também pode ser uma maneira dogmática de impor um ponto de vista. E essa postura parece não ter nenhuma afinidade com os propósitos da “escola” cética.

Por outro lado, talvez não seja sensato desconsiderar muitos dos aspectos filosóficos aqui esboçados. Por um lado, nas Hipotiposes Pirrônicas, Sexto Empírico apresenta aos seus leitores e leitoras um trabalho muito minucioso em relação ao tratamento do pensamento cético pirrônico em relação ao dogmatismo. Alguns comentadores especializados dizem que, entre os textos da antiguidade, aqueles de Sexto Empírico figuravam entre os textos contendo mais argumentos por página do que qualquer outro texto. Se compararmos os textos de Sexto Empírico com os de Platão, por exemplo, poderemos notar uma grande diferença, sob os mais variados aspectos: em Platão temos uma exposição dialógica de sua doutrina; em Sexto Empírico temos uma exposição muito mais argumentativa ao longo do tratamento das questões dogmáticas. Ou seja, o ceticismo pirrônico tal como foi legado para a história da filosofia por Sexto Empírico pode ser considerado como um dos trabalhos que teve o cuidado de articular uma infinidade de argumentos para: 1) promover a suspensão do juízo; e 2) denunciar os efeitos nefastos do dogmatismo. Por outro lado, Sexto Empírico sempre teve o cuidado de deixar bastante claro ao leitor ou leitora que o pirronismo apresenta certas diferenças em relação às outras escolas de filosofia. Por exemplo, havia quem perguntasse se o ceticismo poderia ser considerado uma escola. E Sexto Empírico dizia que uma resposta dependeria do entendimento da pessoa em relação ao termo “escola”: no sentido dogmático, não poderia ser considerado uma escola; entretanto, no sentido cético, faria sentido falar em “escola”.

Porém, independentemente de qualquer coisa, tenho a impressão de que o melhor a se fazer, diante de todas essas questões – muito fecundas, filosoficamente ricas e instigantes –, é suspender o juízo, pois talvez ainda me reste um longo caminho para amadurecer as minhas próprias ideias. Neste momento, um ponto de vista ou mesmo a interpretação do texto filosófico de Sexto Empírico pode parecer plausível e adequada. Entretanto, em outras circunstâncias, e já em idade mais madura, talvez uma nova consideração possa ganhar mais importância em minhas reflexões e outros elementos poderão ganhar novos contornos. Ainda há muito o que ser descoberto e debatido no âmbito da filosofia. A construção do empreendimento filosófico é algo de tal envergadura que, no estado atual de coisas, às vezes penso que somos apenas bebês curiosos que começaram a tatear as coisas. De um lado, temos a produção filosófica, com a articulação de suas teorias, e de outro, o ceticismo, com a articulação de seu aparato crítico. Ambos em rica e pacífica tensão de convivência.



Referências bibliográficas:

SEXTUS EMPIRICUS. Outlines of Scepticism. Edited by Julia Annas and Jonathan Barnes. Cambridge texts in the history of philosophy. New York: Cambridge University Press, 2000.

 

 

Sobre a pintura:

Henriette Ronner-Knip (1821-1909) 

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Óleo sobre painel 

Coleção privada 

Foto em domínio público


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