Saturday, January 7, 2023

O cuidado com as palavras durante a tradução

 






Eis mais uma publicação em nosso blog. Sejam bem-vindo(a)s mais uma vez! Em nossa publicação anterior, falamos sobre Duas etapas da tradução: uniformidade terminológica e investigação terminológica. Por um lado, a uniformidade terminológica torna o projeto consistente – e a partir do momento em que o projeto é consistente ele tem qualidade. Por outro, a investigação terminológica viabiliza a busca da tradução mais adequada de um termo. Então, ao fim e ao cabo, teremos o texto original e o texto traduzido. A título de ilustração, nos países onde certos produtos ou serviços são comercializados, o texto original, escrito em inglês ou francês, é direcionado para o respectivo público a fim de impulsionar as vendas desses produtos ou serviços. Entretanto, esses mesmos produtos ou serviços também são comercializados fora de países anglófonos e francófonos. Há outros mercados ao redor do mundo aos quais esses produtos ou serviços serão oferecidos. E, no nosso exemplo, o texto traduzido circulará com o objetivo de atender as necessidades do público brasileiro falante de português. O exemplo é oportuno, uma vez que os meus pares de idioma são inglês>português e francês>português. Diante dessas circunstâncias, a noção de público leitor ou mesmo de audiência aos quais o texto será direcionado ganha destaque. Com essa noção no horizonte, o profissional da palavra poderá orientar o seu trabalho para que o texto traduzido seja capaz de atender aos anseios e suprir as necessidades da audiência. Assim, para que o intento seja bem-sucedido, será necessário levar em consideração pelo menos dois aspectos: de um lado, o texto original; de outro, o texto traduzido voltado para a sua audiência; e, entre ambos, sempre promovendo o entendimento, a compreensão e a comunicação para estreitar, entre outras coisas, laços comerciais e culturais, figura a imagem do profissional da palavra. Se levarmos em conta que as palavras é a matéria-prima que enseja a atividade tradutória, então, transformar essa matéria-prima em um produto bem acabado implica reconhecer que as palavras devem receber todo o nosso cuidado. Na publicação de hoje, gostaria de falar sobre o cuidado com as palavras durante a tradução.

    Por mais inquietante que possa ser a pergunta o que é uma palavra?, e independentemente das possibilidades de respostas, o fato é que as palavras estão presentes nas nossas vidas e nas mais variadas circunstâncias. A pergunta pode fazer algum sentido para certos países e as suas respectivas culturas, sobretudo nos países ocidentais. Entretanto, em outras regiões do mundo, e em outros idiomas, talvez a noção de palavra não tenha sentido algum. Por outro lado, há uma certa inclinação em atribuir às palavras um suposto significado intrínseco, mas o fato de os idiomas ocidentais acolherem a ideia de palavra não implica necessariamente que as palavras tenham um significado intrínseco. Por exemplo, uma mesma palavra pode ser usada em contextos diferentes e conforme o uso transita entre os contextos a oração teria um significado distinto. Vamos usar dois exemplos para ilustrar isso. Usemos o verbo “pintar”. Veja estes exemplos. Apeles pintou um quadro no qual representava a figura de um cavalo. Nesse contexto o verbo “pintar” é usado para indicar que Apeles pintou um quadro onde representava a imagem de um cavalo. Aliás, se me permitem a digressão, recordo-me de uma anedota sobre esse pintor. Certa feita, Apeles estava pintando um quadro e estava tentando reproduzir a imagem da espuma na boca de um cavalo, mas não estava conseguindo. Após muitas tentativas malsucedidas e já se sentido frustrado e extremamente aborrecido, o pintor pegou a esponja onde limpava os seus pincéis e a arremessou na direção da tela. Para a sua surpresa, a esponja atingiu em cheio a boca do cavalo e da maneira mais inimaginável que se possa pensar o efeito da espuma que tanto desejava e procurava foi finalmente reproduzido. Depois disso, Apeles sentiu-se tranquilo. Voltando ao raciocínio. Vamos usar o verbo “pintar” no segundo exemplo. Ela pintou o sete enquanto estava tramando planos mirabolantes. Nesse contexto o verbo “pintar” é usado como uma expressão idiomática: “pintou o sete” indica que a insensatez estava dando o que falar enquanto os planos eram maquinados.

    Levar em conta o surgimento de novas possibilidades semânticas a partir do uso das palavras em diferentes contextos pode ser uma prática muito benéfica para a atividade tradutória. Em minha experiência profissional, tive a oportunidade de trabalhar com textos financeiros, governamentais, jornalísticos, medicina, marketing, técnicos, entre outros. Além dessa abordagem, ao traduzir um texto, sempre é recomendável que o profissional da palavra leia atentamente o texto de origem para que seja possível redigir uma tradução adequada. Mas não é só isso. Ler implica escrutinar atentamente as palavras. Tanto no texto original quanto no texto de chegada. Se me permitem a ocasião, gostaria de partilhar uma experiência que vivenciei quando traduzi um material para um de meus clientes há um tempo. O cliente em questão era uma agência de tradução norte-americana que prestava serviços para uma empresa com uma filial brasileira. O material tinha uma quantidade razoável de palavras, ou seja, foi dedicado um tempo considerável de trabalho para a conclusão do projeto. O material que foi traduzido era para área de seguros. Texto de origem inglês para o português. Durante o processo de tradução, quase no final do documento, havia uma lista com os números de telefone de cada filial da empresa. Notei que o código de discagem internacional da filial brasileira (+55) estava sendo usado indevidamente para a filial de outro país. Assim, ao notar o equívoco, enviei uma mensagem para o gerente de projetos indicando o fato e sugeri que o número poderia estar incorreto, uma vez que o código de discagem internacional do Brasil é +55. Disse, então, que aguardaria pelas informações corretas para que a tradução pudesse ser concluída. Tempos depois, o gerente de projetos respondeu à mensagem indicando que o número havia sido corrigido. E ainda recebi um agradecimento do cliente por conta de ter identificado um erro no texto original que acabou evitando um problema de comunicação da empresa posteriormente. Por fim, a tradução foi entregue com o número de telefone correto e com o respectivo código de discagem internacional (+55) corrigido no texto de origem, também.

    Ainda que o texto original seja bem escrito, esses pequenos equívocos podem acontecer. E quando isso acontecer esteja preparado para entrar em contato com o gerente de projetos para fazer os comentários que considerar pertinentes. Afinal, o profissional da palavra está oferecendo soluções linguísticas para os seus clientes e quando falamos em soluções linguísticas estamos falando de entrega de qualidade, além do trabalho propriamente dito. No entanto, entregar isso para o cliente implica reconhecer que o trabalho de tradução tem o seu valor, ou seja, ele precisa ser justamente remunerado. O tradutor é um profissional que cultiva o hábito dos estudos em sua vida cotidiana. No meu caso, a atividade tradutória ocupa uma parte de minha vida, mas tenho interesse em outras coisas. Tenho formação na área de humanidades e em boa parte de meu tempo livre estou colocando as leituras em dia. Sinto-me muito bem quando estou convivendo com as palavras e encontro em cada uma delas um ingrediente formidável para alimentar o meu pensamento. Entretanto, quando tenho tempo livre, gosto de passear e tomar um café na padaria, também.

    Tenho uma cliente muita simpática em Nantes, na França, e já tivemos a oportunidade de trocar algumas palavras sobre a importância de cultivar o hábito dos estudos. E isso se torna especialmente importante quando estamos com um livro nas mãos. Depois da pandemia de Covid-19, cheguei à conclusão de que quem lê nunca está só. Podemos constatar isso quando temos a oportunidade de visitar uma livraria ou de frequentar uma biblioteca; mas essa evidência ganhou ainda mais força quando pegávamos um de nossos exemplares em nossa modesta biblioteca particular durante o período de confinamento. Em certa ocasião, na aula de francês (pela Internet) durante o período de confinamento, havia comentado com a minha professora que gostaria de ler Os miseráveis, de Victor Hugo. No dia seguinte à aula comprei o livro pela Internet e, dias depois, ele chegou. Passados alguns dias, em uma de nossas trocas de mensagens, comentei com a cliente de Nantes que havia começado a leitura daquela obra. Comentei na aula de francês também. Terminei o primeiro tomo faz um tempo e pretendo começar em breve a leitura do segundo. Acabei direcionado o fio condutor de minhas leituras para outros autores – é comum que a nossa curiosidade seja guiada por nossas inquietações filosóficas. Refiro-me à tradução brasileira da Penguin Classics Companhia das Letras de 2017. Ter começado a leitura de Victor Hugo naquele momento foi extremamente tocante. Durante aquele período, li outros autores também. Os livros alimentam a nossa existência. Ainda não tive a oportunidade de trabalhar na área literária, um dia, quem sabe? – no momento a minha energia está direcionada para a tradução em outras áreas.

    A leitura de obras diversas amplifica os horizontes do leitor. E o tradutor, antes de mais nada, também é um leitor. No meu ponto de vista, o profissional da palavra tem muito a ganhar quando deixa de lado a visão dogmática sobre o processo tradutório, ou seja, a partir do momento em que somos seres humanos e que a tradução é feita por seres humanos – ainda que a tradução automática esteja cada vez mais em voga –, o trabalho poderá ser aperfeiçoado continuamente. Aliás, quem aperfeiçoa as traduções automáticas são… seres humanos! Assim, em seu horizonte, sempre haverá espaço para o tradutor reformular uma frase, adotar um termo mais adequado ou ainda aceitar um feedback do cliente sobre um trabalho entregue. O profissional da palavra trabalha motivado pela ideia de que sempre oferecerá um produto com qualidade excepcional. Por outro lado, quando o tradutor trabalha para agências de tradução, há outros pares envolvidos ao longo de todo o processo, e eles devem ter a sua importância reconhecida a partir do momento em que cada pessoa contribui nas mais diversas etapas da tradução. Então, o cliente final receberá um produto primoroso. Levar tudo isso em consideração é levar em conta a importância do leitor e leitora que comprarão o seu produto ou contratarão o seu serviço por meio de um texto que faça jus à qualidade do que é oferecido. Neste sentido, quando digo que o trabalho de tradução tem o seu valor e ele precisa ser reconhecido e remunerado justamente, também estou considerando, além do profissional da palavra, as próprias agências de tradução. Ainda que o trabalho de tradução seja solitário, a entrega de nosso trabalho está inserida no contexto de uma equipe. O trabalho de tradução, assim, não é feito apenas à duas mãos. Aliás, faz sentido falar em trabalho solitário quando estamos traduzindo?

    Quando um produto ou serviço é oferecido para o consumidor brasileiro, eles deverão ser divulgados para essa audiência. Neste sentido, os textos de marketing têm essa função. Entretanto, a tradução caracteriza-se pela sua diversidade em termos de áreas de especialização, e além da área de marketing, há outras áreas para as quais um texto pode receber tratamento linguístico. Em outras publicações em nosso blog fiz alguns comentários sobre isso. Para a área de TI ou outras áreas técnicas, é muito comum os produtos eletrônicos serem oferecidos com os seus respectivos manuais de instruções. Durante a tradução desses materiais, também é comum recebermos do gerente de projetos os materiais de referência, entre os quais o guia de estilo. Em linhas gerais, esse documento tem uma importância central durante o processo tradutório. No guia de estilo, o documento indica em detalhes todos os parâmetros técnicos que deverão ser levados em consideração pelo tradutor durante o trabalho. Por exemplo, o guia de estilo indica o tom a ser usado (formal, informal, amigável ou técnico), os termos que não serão traduzidos, limite de caracteres, regras para lidar com abreviações e acrônimos, localização de nomes, endereços, formato telefônico, número, datas, horário e moeda, além de outras orientações estilísticas.

    E quando falamos em estilo, além do cuidado com as palavras, também é extremamente oportuno para o tradutor ter referências sólidas que possam fundamentar o seu trabalho coerentemente. Afinal de contas, quando se trata de estilo, estamos falando das qualidades presentes no texto traduzido. Neste sentido, além de saber usar bem as palavras, o tradutor também precisa levar em conta as qualidades estéticas de um texto por assim dizer. Assim, não posso deixar de me recordar de um dos generosos ensinamentos de David Hume (1711 – 1776), le bon David. Em seu ensaio Da simplicidade e do refinamento da escrita, o pensador afirma:


como a maneira simples de escrever é a mais envolvente e bela, pode-se seguramente dar preferência ao extremo da simplicidade sobre o extremo do requinte[1].


    Hume entende que um texto bem redigido é capaz de conquistar a atenção do leitor e haverá beleza no texto a partir do momento em que as palavras forem empregadas com simplicidade. Segundo o filósofo escocês, tudo que provém da simplicidade possui a capacidade de suscitar no leitor as impressões mais agradáveis. Tudo isso tornar-se-á perceptível de acordo com o bom uso das palavras, o emprego adequado da terminologia, o fluxo das ideias exprimidas ao longo do texto, a articulação das frases, o encadeamento dos parágrafos e etc. Entretanto, simplicidade não tem nada a ver com a falta de riqueza de detalhes ou mesmo nuances de complexidade. As ideias, por exemplo, podem ser exprimidas por meio de uma terminologia simples, mas não menos rica em detalhes. Posso visitar a cidade de Paris, e depois, em outras circunstâncias, redigir uma mensagem a um amigo descrevendo toda a riqueza de detalhes daquela cidade. Será possível falar de lugares memoráveis, dos cafés parisienses, da qualidade da comida, de todo o ambiente, dos monumentos, das figuras ilustres, etc. Neste sentido, a partir do momento em que todas as qualidades literárias são exprimidas por meio de um relato simples, a ideia de extremo da simplicidade vem à tona. O extremo da simplicidade, segundo Hume, tem a ver com o extremo grau de qualidade que as palavras são capazes de exprimir. Assim, a gradação varia da menos simples até o extremo da simplicidade. Ou seja, tendo em vista toda a diversidade de palavras presente no idioma da língua materna, em outras palavras, em toda a matéria-prima de trabalho, cabe ao profissional da palavra saber articular o que chamo de gradação da simplicidade para obter o resultado estilisticamente esperado em um texto. Um texto simples é um texto evolvente e belo, e um texto com o extremo da simplicidade é um texto envolvente e belo na gradação extrema.

    Assim, penso que o cuidado com as palavras durante a tradução demanda por parte do tradutor certas habilidades linguísticas. Num primeiro momento, quando estamos traduzindo, vivenciamos dificuldades para encontrar a solução tradutória mais adequada para um termo. Eis o começo da aventura mencionada em A relação do tradutor e seus pares. Neste momento, o pensamento desencadeia todo o seu aparato investigativo para procurar a melhor solução tradutória. Por outro lado, a partir do momento que consideramos que as palavras não possuem um suposto significado intrínseco, o profissional da palavra é capaz de fazer o bom uso das palavras para que seja possível construir o sentido nas orações do texto de chegada. E conforme a redação do texto é feita, as gradações de simplicidade seriam capazes de conferir estilo ao texto traduzido. Portanto, munido com esses recursos, a abordagem do texto de origem poderá ser feita de acordo com todo o cuidado tradutório que as palavras merecem e no texto de chegada teremos um resultado excepcional. Conte comigo, caso necessite de meus serviços linguísticos.

    Muito obrigado pela atenção e espero que você tenha apreciado a leitura. Até a próxima publicação!

 

Referências:

[1] Hume, D. “Da simplicidade e do refinamento da escrita”. In: Ensaios morais, políticos e literários. Introdução à edição brasileira de Renato Lessa, editado por e com prefácio de Eugene F. Muller, Tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro: Topbooks, Liberty Fund, 2004.

 

Sobre a pintura:

Vincent van Gogh (1853-1890)

O semeador

Cerca de 1888

Museu Kröller-Müller, Holanda


Brazilian Portuguese Translations, Brazilian Portuguese Translator #brazilianportuguesetranslations #brazilianportuguesetranslator

Wednesday, August 31, 2022

Deux étapes de la traduction : l'uniformité terminologique et l'investigation terminologique

 







Voici une nouvelle publication dans notre blog. Soyez les bienvenus une fois de plus !  Depuis le premier article, on a parcouru ensemble quelques chemins de notre périple de traduction. Le point de départ a été déterminé dans Le rapport entre le traducteur et les confrères. Ensuite, on a eu l’occasion de progresser vers Quelqu’un a dit que la traduction est …. Ultérieurement, notre randonnée a croisé la question : Des mots : Y a-t-il unesignification intrinsèque ? La question, plus qu’une réflexion, propose une provocation. Il y a une certaine inclination à attribuer une signification intrinsèque aux mots. Toutefois, quand on traduit un texte, on perçoit que les mots sont utilisés de différentes manières dans des contextes différents. Quand l’utilisation des mots passe d’un contexte à l’outre, on perçoit qui est possible d’avoir un changement de signification d’une phrase : une chaise peut être utilisée pour travailler, pour se détendre dans une séance de massage ou même pour jouer du piano. De cette façon, repenser l’existence d'une supposée signification intrinsèque des mots peut être une activité salutaire pour la pratique de la traduction. Des nouvelles nuances sémantiques peuvent émerger à l’existence. En revanche, si on va plus loin, la réflexion peut être un peu plus ample : Qu’est-ce que c’est un mot ?  Évidemment, une possible réponse dépendrait de l’objet de réflexion. Pour les langues occidentales, la question peut avoir sens ; par contre, pour les langues originaires d’autres régions et cultures, la question peut n’avoir aucun sens. Dans la publication d’aujourd’hui, j’ai l’intention d’écrire quelques lignes en examinant deux étapes de la traduction : l’uniformité terminologique et l’investigation terminologique.

  

Dans le monde de la traduction technique et commerciale, quand le professionnel du mot est requis pour travailler dans un projet, par exemple, dans les couples de langues anglais>portugais ou français>portugais, il reçoit une dizaine d’instructions, des matériaux de référence ou même le guide de style avec le projet de traduction. Dans les instructions, c’est commun trouver celle qui dit « maintenir l’uniformité terminologique » – surtout dans les projets avec une grande quantité de mots. En général, un projet de traduction est quantifié en fonction du nombre de mots et plus élevé le nombre de mots, plus de temps de travail sera dévoué au projet. Mais, qu’est-ce que ce serait « l’uniformité terminologique » et comment l’associer au projet ?

L’uniformité terminologique, entre autres choses, a pour but rendre le projet consistant. À partir du moment où le projet est consistant il a qualité. Un projet de traduction peut varier en fonction de sa taille : D’un projet avec un seul mot à un projet avec des milliers de mots. À titre d’information, pensons à un projet dans le domaine de la technologie de l’information avec 90 mille mots. Ceux qui ont déjà eu l’occasion de traduire dans ce domaine savent qu’il y a beaucoup de défis dans le parcours. À mon avis, l’un de grands défis consiste à trouver la traduction la plus adéquate pour plusieurs termes techniques et noms de produits dans la langue cible. Un projet avec 90 mille mots n’est pas un petit projet et ce serait nécessaire dévouer un temps considérable pour finir la traduction.   

 Dans l’industrie de la traduction, il y a des ressources technologiques extrêmement utiles pour faciliter le travail du professionnel du mot. Comme dans les autres domaines professionnels, je dirais que l’ordinateur est devenu indispensable à la routine de travail. Il fait accélérer et augmenter la productivité. Mais, il y a des ressources spécifiquement destinées au monde de la traduction. Je fais allusion aux outils de traduction assistée par ordinateur (outils TAO). Il y en a des nombreuses et j’ai déjà eu l’occasion de travailler avec quelques-uns. Je souligne mes expériences positives avec Trados Studio, memoQ, Smartcat, Wordbee, Memsource Cloud, Passolo, XTM, Lingotek, Wordfast Pro et Smartling.

 

Pour bien comprendre comment l’uniformité terminologique est associée au projet, on doit comprendre comment les outils de traduction fonctionnent succinctement. Imaginons que notre projet dans le domaine de la technologie de l’information avec 90 mille mots a 10 fichiers Word, chacun avec neuf mille mots.  La langue source est le français et la langue cible est le portugais. Pour que le matériel puisse être traduit par le professionnel du mot à partir de l’outil de traduction, il est besoin de créer un projet. Au moment de sa création, il faut indiquer la langue source et la langue cible. Ensuite, les fichiers à être traduits sont indiqués aussi ; finalement, la mémoire de traduction et le glossaire du projet.

  

En général, tout cela est envoyé au professionnel du mot quand le gestionnaire du projet lui attribue la tâche. Après la création du projet, l’outil de traduction divise le texte à être traduit en segments. Dans le propre outil TAO, avec le progrès de la traduction, les correspondances à partir de la mémoire de traduction apparaissent quand il y a des correspondances ; évidemment, quand il n’y en a pas, celui qui le fait c’est le propre professionnel du mot. D’autre côté, avec l’identification de termes techniques dans les segments sources, le glossaire propose la traduction spécifique. Imaginons le terme environnement en nuage. Il peut être traduit vers le portugais comme « ambiente em nuvem », « ambiente na nuvem », « ambiente da nuvem » ou « ambiente de nuvem ». Maintenant, imaginons que ce terme apparaitra de nombreuses fois dans le projet. Quel est le terme à être choisi et comment l’employer tout au long de la traduction afin de garantir l’uniformité terminologique ? C’est exactement ici que le glossaire est mis en scène. Imaginons que le glossaire envoyé par le gestionnaire de projet propose « ambiente na nuvem » ; donc, cette solution sera exactement employée tout au long du projet. De cette manière, avec le soutien d’un glossaire, accessible comme une ressource de l’outil de traduction, le professionnel du mot sera capable de maintenir l’uniformité terminologique, toute la consistance du projet, sa qualité et le rendre intelligible. 

 

Percevons que le choix a été fait à partir de quatre possibilités. C’est-à-dire, dans un premier moment, le professionnel du mot fait la traduction et propose les solutions possibles – « ambiente em nuvem », « ambiente na nuvem », « ambiente da nuvem » ou « ambiente de nuvem ». Les options sont acceptables et également possibles, toutefois, « ambiente na nuvem » a été choisi par le client et, par conséquent, on doit la respecter. À partir du choix du client, le terme a été enregistré dans le glossaire. Environnement en nuage correspond à ambiente na nuvem. Par contre, pour que le choix eût été fait, dans un premier moment, il y avait le besoin de reconnaître l’existence de quatre possibilités terminologiques et une option est devenue la plus adéquate selon le besoin du client. Mais le lecteur le plus curieux, peut-être, se pose la question :  Qu’est-ce que c’est l’environnement en nuage ? Permettez-moi une petite digression. Usuellement, l’environnement en nuage est un concept vastement utilisé dans le monde de la technologie de l’information. Il est constitué par des serviteurs interconnectés dans une infrastructure de réseau placée dans un centre de données offrant des services de traitement de données, le placement de ressources informatiques et logiciel, entre autres choses. Le fait de cet environnement être accessible par une connexion à distance, généralement par Internet, génère l’idée de nuage. Bref, l’environnement en nuage ce n’est qu’un groupe de serviteurs connectés en réseau dans un centre de données offrant des services de traitement de données accessible à distance.

 

 

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Quand le professionnel du mot reçoit un projet à traduire, on a aussi vu qu’il est commun de recevoir l’orientation « maintenir l’uniformité terminologique ». Le gestionnaire du projet envoie tout le matériel de traduction, parmi lesquels une mémoire de traduction et un glossaire. La construction d’un glossaire implique la création d’un dépôt avec de nombreux termes techniques de la langue source à la langue cible. Et la construction de ce dépôt de mots est le résultat concret du processus de traduction. Traduire, à son tour, implique, entre autres choses, investiguer pour déterminer la solution terminologique la plus adéquate.

Dans Le rapport entre le traducteur et les confrères j’ai fait une analogie. J’ai l’habitude de comparer l’activité de traduction à une aventure. Quand on a des difficultés pour déterminer la traduction d’un terme, la convivialité avec les mots devient un peu plus intense, je dirais même conflictuelle. En ce moment, on a besoin de mobiliser tout notre apparat d'investigation afin de trouver la solution la plus adéquate. Dans ce sens, on parle de l’investigation terminologique. Ici, il faut recourir aux ressources linguistiques le plus variées : des dictionnaires bilingues, des dictionnaires d’expressions idiomatiques, des bases de données terminologiques, des images illustratives, des vidéos, des animations, des matériaux de référence etc. Observons que, dans ce cas, on a recouru à nombreuses sources de recherche en ayant toujours en vue le résultat le plus satisfaisant en termes linguistiques. Les moyens de recherche sont variés et ils peuvent être online et offline, c’est-à-dire sur Internet ou en papier. Et après avoir cherché dans ces ressources sans qu’aucune solution soit trouvée, la possibilité de recourir au gestionnaire du projet est mis en scène afin d’être possible de demander plus d’informations sur le terme en question. La mise en pratique de l’investigation terminologique présuppose que notre problème sera résolu d’une manière rationnelle – et de manière satisfaisante pour le client. L'aventure est passionnante, surtout quand le temps presse.

 

Dans ce sens, quand on déclenche l’investigation terminologique, notre pensée est mobilisée à la recherche de quelque chose. Selon l’étymologie, « investiguer » vien du latin investigare, c’est-à-dire suivre les traces. Mais, dans l’Antiquité, et plus précisément à l'époque hellénistique, il y avait une « école » grecque de pensée qui attribuait à I' investigation (en grec zétesis) un statut remarquable. On parle du scepticisme. Pour les sceptiques antiques (skeptikos), il y avait trois types de philosophie : la dogmatique, l’académique et la sceptique. Conformément à la vision des sceptiques, la philosophie dogmatique se caractérisait par le fait d'avoir prétendument trouvé la vérité – comme c'était le cas des écoles philosophiques d'Aristote, des stoïciens et d’autres. Par contre, la philosophie académique jugeait que c’était impossible de découvrir la vérité – comme le faisaient Clitomachus, Carneades et d'autres académiciens. Finalement, les sceptiques continuaient avec leur investigation. On sait tout cela grâce au témoignage de Sextus Empiricus (IIe siècle avant J.-C. – on ne sait pas exactement quand et où il est né) légué à l'histoire de la philosophie par les Esquisses Pyrrhoniennes. 

 

Le professionnel du mot rencontre de nombreux défis devant un texte en langue étrangère. Le texte est articulé par une variété de mots disposés en phrases. Et, pour que l’investigation puisse être faite, il faut avoir un objet de recherche. La variété de mots disposés en phrases constitue l’objet de recherche. Donc, l’investigation peut être une activité continue et ininterrompue. D’autre côté, si on considère que les mots ne puissent pas possiblement avoir une signification intrinsèque, l’investigation par l’intelligibilité de la signification peut être une activité également continue et ininterrompue. Dans notre exemple, on a utilisé le terme environnement en nuage. À partir du moment où  le terme à être traduit apparait, la pensée a déclenché l’investigation terminologique à la recherche de la meilleure solution de traduction. Dans ce cas, on a obtenu des solutions proposées : « ambiente em nuvem », « ambiente na nuvem », « ambiente da nuvem » ou « ambiente de nuvem ». Toutes les solutions sont possibles. Mais, la solution choisie avec une signification intelligible a été mise dans le glossaire : « ambiente na nuvem ».

Ainsi, le langage peut être un moyen puissant par l’expression de la pensée. On peut exprimer nos idées à travers des mots. Dans le cas d’un manuel d’instructions, c’est possible d’organiser une série d’informations pour qu’il permette d’orienter l’utilisation adéquate d’un dispositif électronique, par exemple.  Mais les mots ne sont pas toujours capables d'exprimer pleinement ce que l'on pense. J'ai l'impression que les choses deviennent encore plus complexes quand on parle d'affections, de sentiments et de passions. Comment exprimer tout cet « univers » avec des mots ? D'autre côté, nous sommes des êtres humains et nous sommes exposés à plusieurs difficultés dans notre vie quotidienne. Le langage est-il un appareil cognitif dont le but serait la survie ?

Au-delà de l'investigation, la pratique de la traduction implique d'autres compétences intellectuelles. À partir du moment où il y a la reconnaissance de l’existence de la multiplicité de mots, on peut reconnaitre la possibilité de significations diversifiées. Pour les langues occidentales, cela prend du sens parler en termes de mots, mais c’est possible de ne pas avoir aucun sens pour les langues originaires d’autres cultures, comme je l’ai déjà mentionné. D’autre côté, j’ai précédemment dit que le texte est articulé par une variété de mots disposés en phrases. L’ensemble de phrase forme des arguments, et l’ensemble d’arguments forme des paragraphes. Pour les rendre intelligibles, on recourt à la compréhension. Ensuite, une interprétation peut être construite. Mais l'interprétation d'un texte n'est pas toujours correcte et quand elle est soumise à l'examen critique d'une analyse minutieuse et détaillée, l'interprétation se révèle erronée ou incohérente. Autrement dit, une interprétation peut être une manière possible de comprendre un texte, mais elle est sujette à un débat et à une appréciation critique. Et ceux qui lisent ne sont jamais seuls.

Quand on est dans le domaine de la littérature, ou même de la philosophie, l'interprétation d'un texte peut être aussi variée que le nombre de lecteurs. En littérature, on parle de l'art et son produit, dans une large mesure, est lié à la fiction. L'imagination y trouve un puissant moyen d'expression et les mots prennent une coloration et un contour fantastiques. En philosophie, d’autre côté, on parle de rationalité et son produit, dans une large mesure, a quelque chose à voir avec l'argumentation. Ici, la raison trouve un terrain fécond pour exprimer la pensée et les mots prennent une coloration et un contour arides. Mais le mot est le moyen d'expression commun à la littérature et à la philosophie. 

Selon le témoignage de Sextus Empiricus, il y a un certain moment où des personnes talentueuses qui font face à des anomalies présentes dans la vie quotidienne se sont proposées à les investiguer. Ainsi, motivés par l'idée qu'il serait possible de déterminer ce qui est vrai et ce qui est faux, ils pourraient atteindre la tranquillité (ataraxie). Donc, à partir du moment où ils ont pu soumettre à un scrutin ce qui était présenté à eux dans une circonstance donnée, on a constaté que, pour chaque point de vue, c’était possible de formuler un autre point de vue avec une force tout aussi persuasive. La langue, à son tour, présente une multitude de défis pendant la routine de travail. Le texte écrit dans la langue source, une fois traduit dans la langue cible, doit posséder certaines qualités : on a ici deux textes – l'original et la traduction (tous les deux intelligibles et également persuasifs). De cette façon, le texte traduit peut répondre aux besoins linguistiques les plus variés du public cible. Mes paires de langues sont anglais>portugais et français>portugais. Mais si l'on considère que les mots ne sont pas toujours capables d'exprimer pleinement ce que l'on pense ou même les affections, les sentiments et les passions, je me demande une fois de plus : Qu’est-ce que c’est un mot ? 

Merci beaucoup de votre attention et j’espère que vous avez apprécié la lecture. 

À la prochaine publication !

 


Sur la peinture :

Claude Monet (1840-1926)

Impression, soleil levant

1872

Huile sur toile

Musée Marmottan Monet, Paris, France


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